Aos 40 anos de idade, 15 de sacerdócio, o padre Reginaldo Manzotti é o novo ícone da música católica no Brasil. Após os fenômenos Marcelo Rossi e Fábio de Melo, ele surge com uma nova proposta. Ele canta e tem programas de rádio e TV, como os outros, mas sua dinâmica é voltada para novenas e bênçãos tradicionais. Em seu horário diário no rádio, transmitido em todo o território nacional por mais de 600 emissoras, o padre mantém uma postura rígida na orientação dos ouvintes que ligam para participar da programação.
Cada um de seus dois CDs vendeu mais de 1 milhão de cópias. Mas ele não deixa de destacar em seus shows que não é artista, mas padre. ''Não vivo da música, eu uso a música. Não vivo de palco, eu uso o palco. Vivo para a fé, para ajudar as pessoas a encontrarem a luz'', ressalta.
No sábado, o padre Manzotti autografou seus livros em lojas da cidade e no domingo fez show no Autódromo Ayrton Senna, para mais de 50 mil pessoas. Todo esse ''glamour'' não é problema para o padre, que afirma ser apenas uma ''ponte entre os homens e Deus.''
Por que ser padre e padre de mídia?
Eu acredito que é um chamado divino. Olhando as minhas renúncias e os pontos de convergência em minha vida, eu vi que ser sacerdote para mim é uma missão. Ser padre de mídia é uma necessidade da Igreja. Não é um apelo só meu. Devo ser um reflexo de Deus. Quando as pessoas olham para mim eu espero que elas remetam para Deus. Quando falo para todas as emissoras de rádio, quero ser uma voz que suscita um reavivamento da fé. Estar na mídia e ser padre, no meu caso, é não se conformar em pescar em um aquário ou em um pesque-pague.
Estar em evidência pode ser um risco para sua vocação?
É desafiador. O bispo da minha diocese ofereceu para eu estar livre de paróquias, mas eu não quis. Eu não quero perder o referencial de ser sacerdote. Eu não sou artista, sou padre. O que vai sobrar depois de tudo isso? O padre Reginaldo. Eu sei que hoje os holofotes estão em mim e amanhã estarão em outros. Eu procuro estar cercado de pessoas que me ajudem a viver o que me proponho, que me ajudem a manter os pés no chão.
O senhor trabalha com o sofrimento das pessoas. Como enfrenta isso?
Há dois anos eu passei 84 dias com meu pai na UTI, e ele estava com 84 anos. Também perdi minha mãe muito cedo. Somos em seis irmãos e pela vida de sacerdote não é sempre que posso estar com eles. Mas brinco que às vezes eu preciso tomar um ''banho de família''. Meus problemas eu os vivo de forma serena. Tenho muitas tempestades. Pelo fato de estar exposto, sou alvo de muitas críticas, o que dói. Mas tenho consciência de que não vou agradar a todos. Não tenho essa pretensão. Quero caminhar com reta intenção. Meus problemas, administro com oração e bons amigos.
Como lidar com a fama?
A minha postura é de padre. Eu assinei com a Som Livre, mas em meu contrato há cláusulas que levei anos para fechar. Não aceito fazer eventos em locais fechados com bilheteria paga. Não aceito cachê pessoal. Quando vou a uma cidade, existe o custo ministerial. Eu viajo com 20 músicos. Quem nos convida deve arcar com a passagem, a estadia, a alimentação e o deslocamento. Mas o padre não recebe nada para fazer isso. Não viso lucro. Está em meu contrato que sempre será referido a mim como padre Reginaldo. Eu não sou o artista que usa de ser padre para se promover. Vou contar em primeira mão: sábado, dia 5, vou fazer uma participação no DVD ao vivo do grupo Exaltasamba. Ainda não foi divulgado. É um pagode que fala de Deus. No começo eu relutei muito, mas depois de conversar com pessoas bem avançadas em conhecimento teológico, decidi que posso gravar.
O senhor responde aos ouvintes que ligam de forma dura, muitas vezes, e eles continuam ligando. Por que isso acontece?
Meu programa não é de entretenimento. Não é um programa musical. É um programa onde eu sou uma ponte, e ajo como tal. Uma ponte para levar o ouvinte mais próximo de Deus. Nesse processo de aproximação deve haver mudanças, cobranças, correções e discernimentos. E hoje as pessoas têm muitas dúvidas, muitas incertezas. Se eu corrijo, faço com amor, porque me sinto um pai espiritual. O amor é exigente. Eu preciso dizer a verdade. A pessoa não ligou para que eu passe a mão na cabeça dela, para que eu diga coitadinho, coitadinha, que pena... Ela quer uma luz, e quando a luz chega aos olhos primeiro dói, incomoda. Depois a pupila dilata. Para a luz chegar na vida da pessoa o coração precisa dilatar. Isso também provoca dor.
O senhor teme decepcionar as pessoas?
Eu tenho um orientador espiritual que visito de três em três meses. Todas as vezes que nos encontramos ele repete a mesma frase da primeira vez. ''Cuidado. O dia que você cair, muitos outros vão atrás de você''. Eu não sou um super-homem, não sou um santo. Sou alguém que tem virtudes e conta com a graça de Deus. Tenho muitas fragilidades. Então eu temo sim. Quem não é fraco? Procuro me cuidar. Rezo o terço e a missa todos os dias. Procuro ter uma vida reta. Sou uma pessoa em construção, como todas. Eu sei da responsabilidade que tenho.
As pessoas olham os padres com desconfiança depois dos escândalos recentes?
Eu percebo que a Igreja não é um paraíso de anjos. A doutrina católica apresenta a Igreja como santa e pecadora. Auxiliada pelo céu, feita de homens. Fico muito triste por ver irmãos sacerdotes envolvidos em escândalos. A Igreja nunca deve esconder esses problemas. Deve ter consciência dos danos que isso causa às vítimas da pedofilia, por exemplo, como também de como esses contratestemunhos afetam a fé do povo. O catolicismo vive um momento de purificação, de rever a qualidade do clero que oferece às pessoas. A Igreja assume a culpa e está revendo a formação dos padres. Devemos lembrar que isso é minoria. Não justifica, mas é minoria. Não é também um problema único da Igreja, mas, claro, nenhum fiel espera isso de um sacerdote. Não condiz com a proposta que ele faz à sociedade, assumindo ser padre.


Es­tar na mí­dia é não se con­for­mar em pes­car em um aquá­rio


O ca­to­li­cis­mo vi­ve um mo­men­to de re­ver a qua­li­da­de do cle­ro

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