No café dos deputados, em Brasília, onde não há censura, onde se comentam cobras e lagartos o tema é tratado com certo cuidado. Mas as coisas andam cada vez mais difíceis para a oposição, mesmo depois de crise financeira, do aumento no desemprego e do pulmão de Sérgio Motta.
A oposição não quer saber do assunto porque não se fala em corda na casa de enforcado. E os aliados do governo também evitam esse tema para que o Palácio do Planalto não entre em processo de apoteose, considerando que a batalha da reeleição já esteja vencida, nem mesmo antes de ter havido o embate. Mas na situação atual não há grande chance de um candidato alternativo a presidência da República aparecer e vingar. Apesar de todo rebuliço em torno do ex-ministro Ciro Gomes e agora em torno do ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, Sepúlveda Pertence, é muito difícil uma candidatura saída da chamada centro-esquerda conseguir enfrentar a candidatura de Fernando Henrique ou mesmo ameaçar a candidatura de Lula, com o seu PT, o maior partido da oposição.
Isso porque faltam a esses partidos que estão em busca de alguma coisa nova, de alguma coisa que seja diferenciada, o oxigênio da campanha. O principal elemento para a sua sobrevida que é o tempo na televisão.
Por enquanto, Ciro Gomes, com o seu minúsculo PPS terá só 1,07 minutos de tempo na TV. Tempo suficiente para dizer: ‘‘Meu nome é Ciro’’ e algumas poucas palavras a mais. Esse tempo ainda não é oficial porque é preciso saber quantos candidatos sairão para a disputa. Mas se não houver coligação ele deve mudar muito pouco, porque a base do cálculo é feita através do número de deputados que foi eleita por cada partido no começo da legislatura.
Se o PPS de Ciro Gomes se coligasse com o PSB, do governo de Pernambuco Miguel Arraes, mesmo assim, o problema não estaria resolvido. Ciro passaria de um para dois minutos. Só que o PSB nesse momento torce por Sepúlveda Pertence e também não acha Lula uma má escolha. Em um jantar em Brasília, faz pouco tempo, o cacique de todos os caciques do PSB, que é Arraes, descartou com veemência o nome de Ciro.
As diferenças são muito grandes. Enquanto Ciro teria pouco mais de um minuto, Fernando Henrique teria 11,46 minutos conseguidos só com a coligação do PSDB e do PFL, sem contar com os outros partidos que poderão se incorporar à campanha da reeleição como o PMDB, por exemplo, com o seu capital monstruoso de 7,16 minutos.
Por isso já tem gente dentro do PSB, do PPS e de outros partidos da oposição dizendo que o tal candidato único de centro-esquerda não sai. O negócio é baixar a bola, olhar o gramado, analisar bem o campo adversário e ver o que dá para fazer no próximo lance, que é a eleição presidencial de 2002.
Nada será definido até março, mas mesmo a contragosto Lula está sendo intimado pelo PT a ser candidato pela terceira vez. Mesmo que não acreditem na sua vitória, vários setores da oposição acham que com ele fica difícil surgir um outro nome de peso que possa disputar. O espaço dos demais candidatos que poderiam adotar uma posição de centro-esquerda vai ficando mais estreito na medida em que não conseguem apoio expressivo de outros partidos. Partidos que acrescentem mais tempo de campanha na televisão para esses candidatos.
Tanto Ciro como Pertence precisam desesperadamente da televisão. Só aparecer não basta. Eles precisam mostrar, vender o peixe, que suas candidaturas são melhores que a de FHC. Eles precisam falar e muito. Nesse sentido é que tem gente achando melhor ir de Lula - que tem tempo na televisão. Mas ir de Lula embrulhado em compromissos que possibilitem uma ampla discussão dentro da esquerda, tendo como objetivo um projeto alternativo e sólido para 2002.

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