Tempus fugit, diziam os romanos na antiguidade. O tempo voa, repetimos com frequência. Saber viver numa realidade transitória é uma arte a ser continuamente descoberta. Todos nutrem um profundo desejo de felicidade e paz, mas quanta gente desperdiça a própria vida numa existência apática ou fazendo escolhas inconsequentes? Pompeu, general romano, sentenciou por volta de 70 a.C.: "Navegar é preciso; viver não é preciso". Porém, uma vida errante é como um barco à deriva: leva a lugar nenhum e pode naufragar.

Há pessoas que simplesmente vegetam, "vivem" garantindo apenas o básico. Outros precisam ainda desse ou daquele curso antes de se levantarem e procurarem um emprego. Há quem espera passar num concurso público para enfim laborar. Não faltam os que vivem a reboque financeiro dos pais, provedores de todas as suas necessidades e supérfluos, imbuídos de belas teorias profissionais ou empresarias, mas que raramente produzem alguma coisa. E assim, muitos, aos quarenta ou cinquenta anos, ainda não se entusiasmaram com a vida, nunca chegaram a trabalhar direito e sequer começaram a construir o que quer que seja.

Não é à toa que muita gente chega à terceira idade dizendo: "Jamais vivi". Lamentam por não terem encontrado um norte na vida; por não terem acreditado em si mesmos e ido à luta com paixão; por terem sempre se adaptado à vontade alheia; por nunca terem confiado em seus sentimentos e realizado seus sonhos. O encontro vital mais feliz ou infeliz que todos terão um dia é o encontro consigo mesmo, com a própria realidade nua e crua, com o que foi ou deixou de ser, com o que fez ou deixou de fazer. Terrível nesta hora será a sensação de ter desperdiçado a própria vida por inércia e incapacidade de lutar, arriscar, ousar e gravar seu rastro neste mundo.

Não se pode levar a vida esperando que inventem uma injeção de ânimo, adiando projetos e decisões importantes, protelando o que é desagradável, na espera de que os dias e as pessoas correspondam mais às suas expectativas. A vida nem sempre é aquilo que se espera. Podemos esperar o quanto quisermos, mas a vida jamais será exatamente como pensamos. Sempre encontraremos algum defeito. E seria novamente assim se pudéssemos voltar atrás e recomeçar. Na verdade, o que realmente importa é participar do jogo da vida e não esperar tudo perfeitamente ajustado para ser feliz e começar a viver.

Neste tempo de Páscoa, ao comemorarmos o maior evento da fé cristã, a ressurreição de Jesus, é notável como a maior parte das pessoas, crentes ou não, também anseia por vida nova. Além das situações já elencadas, há muita gente cansada da vida conjugal, profissional, da rotina, da política, dos noticiários, dos amigos e até da religião. Decepções, enfermidades, mortes, angústias, medos e frustrações também sepultam a humanidade. Vivemos um tempo oportuno de reflexão e conscientização. O que você ressente quando pensa em sua vida não vivida? Sob esse pano de fundo reoriente a sua preciosa existência, certo de que se começar agora, a sua vida não vivida também se tornará parte da sua vida e vivacidade.

A vida nova pela qual todos anseiam não é nada mais do que aprender a viver e passar por todas as circunstâncias fazendo valer a pena cada momento. Sob esse olhar é que a Igreja chamou a uma intensa vivência quaresmal através das celebrações, orações e práticas penitenciais. Tudo para que a pessoa humana possa se reencontrar e também ressuscitar. Jesus Cristo, personalidade forte e vigorosa, é nosso referencial. Sua postura interior, suas palavras e seus atos são um caminho eficaz de superação e de recuperação da coragem para abandonar a passividade, acreditar, ousar e assumir as rédeas da vida. Porque Ele vive, podemos também viver, este é o seu maior legado. Uma feliz e santa Páscoa a todos.

ROMÃO ANTONIO MARTINI MARTINS é padre na Arquidiocese de Londrina

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