Assistencialismo diminuindo invasão de terras
Reportagem publicada domingo neste Jornal revela que o programa Bolsa-Família propiciou a diminuição das invasões dos sem-terra a propriedades rurais, e isto se deve ao fato de que esse serviço governamental atendeu algumas exigências mínimas da pobreza e isto refletiu sobre o movimento do MST, que perdeu um pouco de sua força. Agora seus líderes apostam numa crise alimentar pela produção dos biocombustíveis, e isso, no entender deles, os colocaria de novo em linha de vanguarda. De qualquer modo, os sem-terra continuam na ação de ocupação das cidades.
Se as invasões de terras tendem para um esvaziamento, a questão agrária precisa deslocar-se desse universo dos invasores e ocupar mais acuradamente a atenção governamental. Porque uma reforma consistente do sistema agrário precisa ser feita e atender aos legítimos colonos que pedem terra para cultivar. Hoje, entre verdadeiros agricultores e oportunistas, existem 150 mil famílias, no Brasil, ocupando acampamentos, num total estimado de meio milhão de pessoas. Certo é que não se poderá apenas entregar-lhes uma gleba mas planejar toda uma inteligente infra-estrutura, de forma a fixar essa gente no campo em condição sustentável. Se o programa das ajudas mensais que o Governo oferece a 11 milhões de famílias - bolsa-família, vale-gás, vale-alimentação - é uma emergência necessária face ao grande número de carentes, sabe-se que isto não tirará da dependência nenhum dos beneficiados e os manterá pobres e sem perspectiva. Pior, está gerando a acomodação de muitos, que se saciam com essa migalha e não pensam em buscar trabalho e evoluir economicamente. O enfraquecimento da ação dos sem-terra é uma amostragem, porque se há um socorro mais fácil, em dinheiro, e sem necessidade de trabalhar, tanto mais atraente.
Os jovens, sobretudo, estão se cansando do desconforto dos acampamentos e preferem deslocar-se para as cidades, embora não encontrem ali vida melhor. No Governo Lula as invasões do MST (no campo e nas cidades), foram se intensificando - porque dos discursos do metalúrgico à ação (agora que ele está em posição de poder fazer) nada evoluiu quanto à revolução agrária anunciada. Mas depois do programa Bolsa-Família as invasões no campo começaram a diminuir. É o assistencialismo influenciando numa causa não resolvida.
Com bolsas ou não, a questão da reforma agrária não pode ser esquecida. O advento do novo modelo de extração agrícola - os biocombustíveis - expande o campo de oportunidades e propicia atenção especial para o drama social daqueles milhares de sem-terra vocacionados para realmente produzir.





