A água é sempre água pura. Não existe água poluída. Componentes adicionais é que se agregam a ela, porém não a decompõem. Filtrados os corpos estranhos, a água ressurgirá cristalina, tal qual era antes. Água fétida também não existe, assim como não existe água perfumada ou água salgada, porque são as substâncias alheias à sua condição natural que lhe alteram o aspecto.
A água de esgoto, se decantada, revelará novamente a sua pureza. Mesmo em meio às misturas, ela não se modifica em sua essência. Água de chuva ácida, que chega a esse ponto pela adição de agentes poluidores em suspensão, tornar-se-á outra vez integral depois de passar pelo processo de filtração pela terra.
Serpenteando por entre pedras e dejetos, a água vai deixando atrás os resíduos à medida que se aprofunda no solo, até reencontrar seus canais e ressurgir em algum lugar, triunfante. Penetra pelos caminhos da seiva e pelo organismo dos seres vivos, sacia-lhes a sede e a necessidade vital, converte-se em urina, que é expelida e volta a ser água boa de beber.
A água que temos é a mesma de quando a Terra foi fundada. Não veio água nova de lugar algum. A água não se gasta. Ele se evapora, converte-se em chuva para exercer a missão de irrigar os campos e assim fazer manifestar-se a vida vegetal, e de novo enche os mananciais para novas funções e nova evaporação, porém sempre e tão-somente água. Nada a contamina e nem a corrompe. Diz-se água contaminada porque não há outra forma de definir quando um corpo novo se acrescenta a ela, mas nada penetra em seu núcleo.
Portanto, água de beber não faltará à humanidade, porque ela retornará em idêntica quantidade e qualidade depois de ser bebida e expelida, depois de ser material de limpeza e condutora de esgotos, de ser córrego e rio, de ser lágrima e suor de corpos. Só bastará saber usá-la e cuidar dela com carinho.
Toda água perambula pela profundeza da terra, pela superfície, pelos mares e ares, e, mesmo que tangida pela acidez, pelos sais, pela toxidade e por outras substâncias, acabará retornando puríssima, como nunca deixou de ser.
Assim como o homem. Nada macula a sua essência primordial. Agentes estranhos agregam-se à sua personalidade no correr da longa e extenuante caminhada por diferentes transmigrações e vivências, mas chegará o momento em que ele ressurgirá em sua pureza e magnificência e em sua imutável realidade essencial.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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