Assalto à mão desarmada
A estrada está literalmente repleta de armadilhas. O assalto começa com pedágios abusivos em pistas simples
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terça-feira, 13 de janeiro de 2026
A estrada está literalmente repleta de armadilhas. O assalto começa com pedágios abusivos em pistas simples
Padre Manuel Joaquim R. dos Santos 
O verão desnuda o Brasil. Não apenas em sentido literal! A estação que traz calor e chuva e torna os pais malabaristas com os filhos fora da escola, inunda as rodovias do país num formigueiro impressionante. O Brasil fica reduzido, tal é a avalanche de automóveis de Norte a Sul, de modo particular no Litoral. Trata-se do retrato falado de um crescimento que infelizmente é deforme. Uma nação que viu o seu PIB aumentado em 2% em 2025, mostra a sua pequenez no atendimento estrutural dos que sentiram no bolso esse crescimento. São milhares, os que fizeram e refizeram as continhas, revisaram o seu carrinho 2015 e enfrentaram a estrada. O que era para ser a viagem dos sonhos, não raro vira pesadelo.
Um amigo acabou de me contar que ficou na semana passada quase duas horas parado entre Itapema e Camboriú, sem nenhuma razão aparente (acidente ou obras). O trânsito estancou nos dois sentidos. Apesar dos 29 graus do momento, não eram poucos os que saiam do carro olhando para cima e se perguntando porque as suas férias deveriam incluir esses dissabores! Não fica difícil imaginar como o humor iria condicionar os dias subsequentes desses veranistas ou trabalhadores.
Este que vos escreve, também enfrentou situação semelhante repleta de peripécias, que inspiram esta crônica. Por princípio sou adepto de Gramsci, ao afirmar que “pessimismo é do intelecto e otimismo da vontade”! Porém, confesso que me lembrei várias vezes do meu conterrâneo Saramago, quando dizia que ele não era “pessimista e sim, o mundo que era péssimo”!
A estrada está literalmente repleta de armadilhas. O assalto começa com pedágios abusivos em pistas simples, que agora em alguns trechos são “eletrônicos” e obrigam o motorista a correr para baixar o aplicativo e pagar antes que vire multa! Eles são espessos e caros! Retirando postos de trabalho (e quem sabe se aproximarem do Primeiro Mundo) instalaram as máquinas para crédito e débito. 80% dos que eu passei exigiram a presença do auxiliar humano! Mas, o motorista ainda terá que fazer um ato de fé: acreditar na duplicação, em vinte anos! A rodovia Londrina-Curitiba possui ainda hoje trechos de pista simples!
O assalto assume proporções inquietantes com a indústria das multas. Se o leitor fizer uma viagem e não ficar lembrando dela nos próximos meses é um herói! A mudança das placas de sinalização com a velocidade permitida é abruta! Uma autêntica armadilha! De 100 “cai” para 80 e logo já está o radar de 60! Se você moderar a velocidade o carro de trás te abalroa, se não o fizer, o seu bolso sentirá! Como eu viajei ao cair da noite com chuva, a “tempestade ficou perfeita”! A falta de sinalização no solo e a água caindo, fazem das rodovias uma terra de ninguém; um salve-se quem puder!
Mas, a pequenez do país expõe as suas vísceras no tráfego rodoviário. Era quase meia noite e a pista estava repleta de caminhões nos dois sentidos! Fiquei perplexo! Um país que cresce na movimentação de riquezas e que vê os seus produtos inflacionados, pela quase exclusividade do transporte de mercadorias em rodovias. Não pude deixar de refletir sobre a vida e o trabalho desses brasileiros cruzando o Brasil! A que horas começaram a trabalhar? Quando iriam parar? A estrada partilhada pelos que dela precisam, com os que têm o direito inalienável de passear. No Brasil, esta conta não fecha!
Enquanto na mente, com o trânsito pautado pela lentidão entediante, eu gerava este artigo, eis que uma roda cai no buraco! Não foi nada, digo para mim mesmo! Vida que segue! Quer dizer, viagem que prossegue, sob os assaltos à mão desarmada, que desnudam uma nação teimosa em se desenvolver.
Padre Manuel Joaquim R. dos Santos, Arquidiocese de Londrina


