Dois meses antes de completar 74 anos (em 2013), talvez em sua última entrevista na Fazenda da Capela, José Eduardo de Andrade Vieira contou que, decidido a ter menos encargos, acabara de vender aquela propriedade, no município de Joaquim Távora. O laço familiar com o imóvel tinha mais de 70 anos, desde que o pai, Avelino Vieira, o comprara para legar aos filhos e netos.
O motivo da entrevista era a exuberante mata nativa ocupando 200 alqueires, os 20% obrigatórios de preservação, a maior reserva do Norte Pioneiro. Inevitáveis, porém, outros fatos envolvendo José Eduardo, o banqueiro, o político, o agropecuarista. Coincidentemente, naquele mês, extinguia-se o Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional (Proer), depois de 18 anos; os ativos do Bamerindus (em liquidação) que ainda restavam, o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) vendeu ao BTG Pactual por R$ 400 milhões aproximadamente.
Segundo José Eduardo, o valor ao final da liquidação indicava que o Bamerindus – banco do qual era o presidente – nunca havia "quebrado" e mesmo a venda dos ativos em 1997, ao HSBC, poderia ter sido evitada, conforme suas críticas contundentes ao então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, e seu ministro da Fazenda, Pedro Malan. Por R$ 381,6 milhões, o HSBC recebeu o Bamerindus com ativos de R$ 10 milhões, 1.200 agências, 3,1 milhões de correntistas e uma das mais rentáveis seguradoras do País.
Eleito senador, em 1990, José Eduardo assumiu ministérios e cogitou, mais tarde, candidatar-se a presidente da República. Ainda no governo Itamar Franco foi o ministro da Indústria, Comercio e Turismo (19/10/92 a 23/12/93) e acumulou (1/9/93 a 13/10/93) o de Agricultura e Abastecimento com o de Reforma Agrária. Com Fernando Henrique é ministro da Agricultura (1/1/95 a 2/5/96). O prestígio para ser ministro atribuiu ao sucesso da campanha eleitoral, que popularizou o "homem do chapéu" e teve a participação do cantor Sérgio Reis, com repercussão além do Paraná.
No dia da entrevista (3/10/2013) na Fazenda da Capela, embora estivesse apressado, falou de diferentes atividades, intensamente, num período mais recente.
A campanha para senador projetou uma personalidade simpática, espontânea, e segundo José Eduardo, embora houvesse o "marqueteiro", prevaleceu uma ideia do próprio candidato. "Eu bolei. Toda campanha tem de ter um mote", contou. "Eu sempre usei chapéu, antes havia muita gente que me conhecia assim e adotei o chapéu. E na campanha, todos [que iam aos comícios] queriam usar o chapéu do Zé Eduardo."
No fim dos comícios jogava o chapéu à multidão, o que exigia ter um estoque. "Foi uma campanha bem estruturada, planejada. E isso (o resultado) me ajudou muito a ser o ministro mais forte em Brasília."
Por vezes, o procuravam para dar soluções na alçada de outras pastas, caso dos índios terenas de Mato Grosso do Sul, que insistiam em vê-lo, não adiantava informá-los de que deveriam ir à Funai. Mas ao saber que os índios queriam só instrumentos agrícolas manuais, enxadas etc., o ministro nem sequer requisitou verba pública: "Tudo, custava pouco mais de dois mil reais, dei o dinheiro. Claro que o ministro era rico, podia fazer isso".
Outra solução dependia de um reconhecimento do Ministério da Cultura, por envolver uma etnia, mas coube ao ministro da Agricultura e Reforma Agrária criar "a primeira comunidade quilombola no país, na Bahia". O impasse envolvia 20 mil alqueires em litígio, mas os quilombolas pleiteavam apenas dois mil que, "por usucapião, era deles". O ministro determinou a regularização e simultaneamente, a demarcação dos restantes 18 mil para a outra parte.
E sabendo que haveria o melindre, dera uma orientação: "Vamos fazer com que o Ministério da Cultura leve as glórias. Tudo bem, isso não vai me tirar pedaço".
A objetividade do ministro da Agricultura seria providencial aos cafeicultores ante o mercado internacional aviltando o preço. "Descobri que os estoques não estavam nas mãos dos exportadores (os países produtores); era preciso fazer os estoques mudarem de mãos", recordou José Eduardo a estratégia, que consistiu em suspender as vendas por seis, sete, oito meses. "Eu era produtor de café, mas isso não quer dizer que conhecia a política mundial (em termos da produção). E fiz um estudo profundo." Soube que a comercialização no exterior estava restrita a intermediários na Alemanha, Canadá e Inglaterra e orientou a interferência dos produtores, que elevou os preços.


"Eu sempre usei chapéu, muita gente me conhecia assim e o adotei. E na campanha, todos queriam usar o chapéu do Zé Eduardo"
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