As vitórias dos corruptos e coniventes
No rescaldo do vergonhoso episódio da absolvição de Renan Calheiros, ele mesmo julga-se um vencedor, depois de afirmar-se vítima, e crê-se limpo pelo veredicto da maioria dos pares e pela omissão oportuna dos petistas do Senado, na votação. Também os que votaram a seu favor devem estar se ufanando, mas não pensem que tenham a aprovação da opinião pública. Embora isto para eles tenha pouca importância. A redoma que habitam é tão distante do bafejo das massas que eles já não reconhecem o povo e não se dão conta de que há um Brasil aqui em baixo e que os brasileiros os observam, entre indignados e enojados.
O próprio presidente Lula, ora no exterior e defensor indisfarçado da absolvição do aliado, com toda a certeza está igualmente feliz com o desfecho e, no momento, entende-se vitorioso. Porque soube conduzir a companheirada no Senado e articulou bem o esquema para tudo dar certo como ele queria. Voltará exuberante, embora vá disfarçar isso muito bem. Ele declarou que só falará a respeito do caso quando chegar um artifício que sempre utiliza quando está fora e lhe fazem perguntas sobre questões embaraçosas mas é certo que dissimulará e irá dizer o que já se sabe: que foi uma decisão soberana dos senadores.
Se a situação do Renan ressuscitado não é tão confortável porque, a bem da verdade, houve os que votaram pela sua cassação, embora não por amor à moralidade mas por conveniências político-partidárias Lula ainda conta com a articulação do presidente do Senando junto aos correligionários peemedebistas para votar favoravelmente à continuidade da CPMF. E quanto ao mais, não será preciso ter bola de cristal para vislumbrar que o senador alagoano irá vencendo também nos tribunais, onde processos contra ele ainda correm. Porque escassearão as fatídicas provas, como de costume, eis que os corruptos não passam recibo de suas trapaças e nem as registram em cartório. Mas novas absolvições não serão propriamente atestados de inocência, tanto do político denunciado como dos tantos homens públicos julgados e inocentados.
Mesmo que provas sejam apresentadas, o sistema processual é tão elástico que permite dilatações infindáveis, até que tudo caduque e até lá os maus políticos continuem no mando e no desmando porque o povo de certas regiões deste país e as camadas sociais carentes, mas poderosas pelo voto, os mantêm no poder. Muitas reformulações políticas serão necessárias, de modo a impedir o triunfo constante desses corruptos, mas o ponto crítico é que tais mudanças são da alçada do corpo parlamentar, que é o que legisla. Portanto, eles mesmos. Se pela via democrática eles não o fizerem, o povo resoluto poderá fazê-lo, e certamente o fará em dado momento. Não se iludam os cidadãos imaginando que grandes mudanças ocorrerão apenas pela via das urnas, porque já se provou que apenas votar, deixar de votar, votar em branco, rejeitar este ou aquele e contemplar os novos, não resolve. Há momentos da história que reclamam ações mais contundentes. A ira popular já está chegando ao ponto de combustão.





