As vítimas silenciosas do governo - Arlete Salvador
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 07 de agosto de 1998
Arlete Salvador 
No ano passado, a queda nas bolsas de valores asiáticas levou o governo a baixar um pacote fiscal cheio de maldades. Foram aumentados os juros barbaramente e, com eles, boa parte dos impostos e taxas, como o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e o Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF). Desses, o governo voltou atrás no aumento do IOF e do IPI sobre carros. Sobramos nós, os contribuintes do Imposto de Renda. Ainda estamos arcando com a conta da quebra da bolsa.
A julgar pelas decisões recentes do governo, o pacote do ano passado já não se justifica. O IOF foi reduzido de 16% para 5%. O IPI dos automóveis caiu cinco pontos percentuais e está no mesmo patamar de novembro de 1997, quando as bolsas asiáticas sacudiram o planeta. Nos dois casos alega-se que as reduções visam a reaquecer a economia. Claro que, no caso dos carros, contribui o pesado lobby das montadoras - com a influência política que elas têm para conseguir que suas reivindicações sejam atendidas. Também chantagearam, é verdade, ameaçando fazer demissões e cortes na produção se as vendas não melhorassem.
Nós, portadores de hollerites (ou contracheques, como se diz em Brasília), não temos lobby. Não temos associação de classe nem quem nos represente no Congresso. Vale uma ressalva para o senador Antonio Carlos Magalhães, que, no ano passado, conseguiu preservar os contribuintes de renda mais baixa da facada do pacote fiscal. Na hora de reaquecer a economia, e baixar a alíquota do IOF e do IPI, entretanto, não fomos lembrados. Continuamos pagando.
Não podemos nem reclamar. Sempre aparece alguém para dizer que somos os privilegiados deste país. Afinal, temos um emprego e um salário mensal para alguém meter a faca. Deveríamos dar graças a Deus. Diz-se ainda que estamos sendo indiretamente beneficiados pelas reduções nos impostos, porque somos nós que pagamos o IOF aos bancos e compramos carros das montadoras, agora com o IPI mais baixo. Tudo ficou mais barato para quem ainda tem salário para comprar alguma coisa. Ao contribuinte só resta pagar de boca fechada.
Quando o governo reduz taxas de impostos cobrados, aumenta os lucros de bancos e montadoras. Os primeiros passam a emprestar mais e as segundas a vender mais. O bolso do contribuinte do Imposto de Renda ainda não recebeu esse agradinho do governo.
Como somos vítimas silenciosas e acuadas (não podemos fugir do Leão), somos as vítimas mais à mão. É o jeito mais cômodo de arranjar dinheiro.
Na hora de baixar o pacote, fomos convocados a contribuir com mais sacrifício. No momento em que outros setores ficam livres do sacrifício, nós nem ao menos somos mencionados.
Se o Leão nos devolvesse o que vem comendo a mais dos salários desde janeiro, a economia também se reaqueceria, para usar o mesmo argumento que justificou a redução do IOF e do IPI. Pouco importa o argumento, na verdade. A conta da crise sobrou para o contribuinte do Imposto de Renda.
- ARLETE SALVADOR é jornalista em São Paulo


