As violências não previstas em lei - Walmor Macarini
Walmor Macarini
Se queremos ver diminuída a violência, temos, cada um, que começar a ceder um pouco em nossa insensatez, em nosso egoísmo e em nossa visão estreita de cidadania, de fraternidade e de responsabilidade perante a vida. Acostumamo-nos a ver a violência sempre nas atitudes dos outros. Criamos nossos parâmetros do que seja violência, e os catalogamos como tudo aquilo que prejudica apenas a nós, individualmente, e às nossas famílias, às nossas empresas, às nossas corporações. Nem temos muita consciência do prejuízo coletivo.
Porém o marginal que nos agride tem também seus padrões próprios acerca de violência e, segundo esses valores, os violentos somos nós, justamente nós que nos imaginamos a parte sã da sociedade, imaculada e intangível. Se ele soubesse empregar palavras sofisticadas diria que é vítima, que age em legítima defesa e que tem direito à cidadania, mas se não diz, carrega no inconsciente esses registros, como algo que o impulsiona a fazer o que faz. Certamente que seus conceitos sobre direito patrimonial, e afins, não são os que estão nos códigos.
Violentos, segundo está convencionado e é do consenso, são os que invadem nossas casas e nos roubam; os que nos molestam e violentam nossa integridade física; os que nos subtraem a vida; os que invadem nossas propriedades e delas se apossam; os que nos ameaçam e subjugam; os que saqueiam nossos bens e vilipendiam nossos valores morais; os que nos machucam com atitudes e palavras.
Porém a violência maior está nesta política governamental que contempla os traficantes do dinheiro com a permissividade para operarem juros assassinos falamos, obviamente, dos bancos dessa forma enriquecendo-se mais e mais (sem o pudor de, ao publicar seus balanços, exaltarem os lucros colossais), enquanto as empresas são levadas por eles como paus-de-arrasto, atadas pelas dívidas que as conduzem ao desespero e ao fechamento, com isto gerando desemprego, caminho fácil para desatinos como o roubo, aí valendo todos os meios e consequências. Violência é o abuso de autoridade e do poder, o descaso, a pressão e a opressão, a execração pública de nomes de devedores nas listas de protesto e leilão de bens, entre eles o trator e a casa própria. Violência é o descaso da burocracia, inoperante e emperrada, que atravanca e tortura, enquanto suga a maior parte da receita nacional. Violência é também a indiferença das pessoas consigo próprias.
Eliminados os problemas sociais, estariam eliminados os problemas de segurança dos cidadãos? Nem sim, nem não, mas quando a família vai bem, são menos prováveis os descaminhos para a delinquência. Nos países de maior equilíbrio sócio-econômico, são quase inexistentes os delitos contra o patrimônio.
Paradoxal que pareça, se queremos romper a cadeia da violência temos que começar a ceder. Mas, ceder ao ladrão, ao sequestrador, ao que violenta e mata? Não. Ceder ante as causas que induzem pessoas a essas práticas. Os veículos de comunicação têm, também, que ceder nessa obsessão pela difusão das tragédias e maldades, porque se é verdade que as pessoas apreciam o espetáculo dos descaminhos humanos, ademais mostrados pela magia das telas, com suas cores, movimentos e edições bem elaboradas e recheadas de forte carga emocional, é igualmente verdade que os mortais cidadãos ficaram quase sem opções, sendo-lhe quase impossível escapar, porque, sobretudo a televisão, está muito presente em nossas casas, e seu apelo é quase irresistível. Então, eliminando a difusão da violência nos veículos de comunicação, a violência começaria a declinar? Nem sim, nem não, mas haveria ao menos um descanso nacional... e isto significaria mais paz em nossas já atribuladas cabeças.
Campanhas pela causa da segurança, que sempre acontecem nos momentos de exaustão coletiva, podem atenuar temporariamente o problema, porque intimidam um pouco os delinquentes, levam o governo a algumas medidas e induzem as pessoas a tomar mais cuidado, porém acabada a motivação tudo volta como dantes, porque as causas não foram combatidas.
Se, em nossos negócios, negligenciamos na qualidade dos produtos e serviços, e abusamos dos preços, estamos cometendo uma violência. Se os governantes, desde o vereador ao presidente da República, aplicam mal o dinheiro público quando não o embolsam cometem a maior das violências. Se, ao menor sinal de ventos contrários, já vamos demitindo nossos empregados, sem antes verificar se não é outro o ralo por onde está escoando nosso lucro, estamos desfechando um duro golpe contra alguém, e isto é violência. Se temos um amontoado de leis esdrúxulas, e em certos casos conflitantes entre si, e por conta delas e de sua elasticidade as coisas não andam e a Justiça se emperra, então nossos legisladores, pela sua miopia e negligência, estão cometendo violência grave contra a Nação.
Que a violência está arraigada na oficialidade, qual molusco em casco de navio, isto já é algo consagrado e, lamentavelmente, consentido na cultura do brasileiro, mas a violência também está manifesta no silêncio e na indiferença dos cidadãos.
Nossas formas-pensamento carregadas de ira e maledicência constituem também densa propagação de ondas de violência, de pronto absorvidas e robustecidas pela mente coletiva, inflando ainda mais a atmosfera de violência. Temos que estar atentos às grandes e médias e pequenas violências que cometemos, as não previstas em lei e que por isso passam despercebidas, no entanto causem tanto dano!





