Vamos terminar, com este, esta já longa série de artigos, tratando de um problemas que interessa a todos: o problema da verdade. O conceito de verdade é primitivo (não pode ser definido na base de conceitos mais simples), é intuitivo (mesmo sem maiores explicações, todo mundo sabe o que é verdade), é fundamental (para todas as áreas do entendimento) e é analógico (pode conter sub-conceitos que tenham a mesma intenção mas diferentes tipos de sustentação).
Consegui, há algum tempo, arrolar 12 tipos de verdade mas um amigo meu, o doutor Gunther Jensen Eble, que estudou na Universidade Federal de Santa Catarina e atualmente reside nos Estados Unidos, numa curta conversa que teve comigo, sugeriu mais duas (a 13ª e a 14ª da lista abaixo); eu próprio acabei inventando a 15ª .
1. Verdade adequacional ou correspondencial. Ocorre quando o que digo corresponde exatamente ao que é. É a verdade dos filósofos.
2. Verdade pragmática ou quase-verdade. É a verdade da Ciência empírica. É a verdade da explicação científica (Pe. Lima Vaz). Amplamente estudada pelo eminente lógico doutor Newton Carneiro Afonso da Costa, ex-professor da UFPR e atual professor da USP.
3. Verdade coerencial. É a proposição que está de acordo com o que se sabe com segurança.
4. Verdade da autoridade. É a que deriva de fonte confiável.
5. Verdade lógico-intuitiva. Por exemplo: o todo é maior do que cada uma de suas partes.
6. Verdade da enumeração. A série é infinita 1,2,3,4,5,6, etc., permite que eu veja que 2+2=4, que 2x3=6, que 9-2=7, etc.
7. Verdade da computação. É a que brota de uma análise computacional ao mostrar que a solução de um dado algoritmo é verdadeira até onde foi testada.
8. Verdade do atendimento às nossas crenças e expectativas. Quando ouço dizer algo que está de acordo com o que penso e sinto.
9. Verdade da demonstração matemática. Segundo o grande matemático, professor R. Penrose, da Universidade de Oxford, essa verdade é eterna, externa e absoluta.
10. Verdade estatística. É a que deriva de estimativas que têm uma certa probabilidade de erro.
11. Verdade da classe dominante. É a de qualquer posição aceita pela classe dominante de uma sociedade.
12. Verdade do sistema de referência. Einstein já abordou este problema em física, mas serve para qualquer ponto de referência social, cultural, educacional, etc.
13. Verdade filosófica. É a que brota da especulação dos filósofos. Tem uma tradição de cerca de 25 séculos. Desde os vultos imortais de Platão e Aristóteles (nos séculos IV e V antes de Cristo) até uma plêiade brilhante de pensadores dos últimos tempos, a Filosofia tem florescido graças a sua alta capacidade especulativa.
14. Verdade religiosa. Certo número de pessoas é dotado, em alto grau, da capacidade de captar o transcendente, isto é, aquilo que está além da realidade (imanente) do nosso dia-a-dia. Esse dom parece estar distribuído, em doses menores, por toda a humanidade mas se encontra concentrada em alguns privilegiados tais como os místicos cristãos (como São João da Cruz) e os médiuns espíritas, tais como o famoso Chico Xavier. As religiões são muito difundidas e seu número é extremamente elevado (um antropólogo calculou em cerca de 100 mil o número de religiões tidas pela humanidade desde sua emergência a partir dos primatas ditos primitivos). As religiões são tão populares que sua diversificação é gigantesca mesmo num país como o Brasil, católico desde o seu início colonial, cuja religião única foi submetida (por consentimento mútuo) ao regime do padroado, difícil de ser exercido pelos governos da colônia e do império, assim como humilhante e castrador para a Igreja, que não dispunha da liberdade que só adquiriu com a República. E mais: cada religião tem suas autoridades fundadoras e divulgadoras. E mais ainda: são corroboradas por fatos. Todo religioso é capaz de referir um imenso número de milagres, aparições, levitações, curas, etc,. aceitas como confirmadoras de suas verdades transcendentais. Note-se, no entanto, que as religiões representam agrupamentos de pessoas zelosas de sua autonomia e se seus princípios. Em geral, lutam por manter sua segurança e expandir seu proselitimso, o que pode contribuir para a geração de perseguições e de guerras.
A religião inclui a fé, mas esta é livre, pura, sem regras, sem cerimônias e sem dogmas.
15. Verdade poética. Trascende a verdade corriqueira das palavras corriqueiras. Caracteriza a poesia, que pode estar contida nos próprios livros de poesia, como também em romances, em contos, em novelas, etc. Há uma verdade aí, mas é uma verdade diferente da que as multidões aceitam. Exemplos: ‘‘Poesia é quando a tarde está competente para dálias’’ e ‘‘As coisas que não têm nome são mais pronunciadas por crianças’’ (Manoel de Barros); ‘‘Eu me lembro das coisas antes delas acontecerem’’ (Guimarães Rosa); ‘‘A atmosfera estava tão úmida que os peixes poderiam entrar pelas portas e sair pelas janelas, navegando no ar dos aposentados’’ (García Márquez); ‘‘Olhemos os olhos das crianças, que eles encerram mistérios; / dentro de suas pupilas moram selvagens bons, / pairam neles as lendas das terras desconhecidas’’ (Jorge de Lima); ‘‘Penetra surdamente no reino das palavras. / Lá estão os poemas que esperam ser escritos’’ (Drummond de Andrade); ‘‘O mais seguro nesta vida é o que jamais se conhece’’ (Dylan Thomas).
E, com essas verdades, encerramos esta série de artigos. Sem esquecer que todos os poetas do mundo são grandes criadores de verdades. Grandes verdades poéticas estão, por exemplo, na Bíblia, desde o comecinho de Gênesis.
- NEWTON FREIRE-MAIA é professor titular emérito da Universidade Federal do Paraná, membro da Academia Brasileira para o Progresso da Ciência

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