Está certo o presidente Lula ao declarar que ''com democracia não se brinca'', mas seu conceito não está enfocado no quanto o Governo subtrai ao povo e assim solapa um princípio democrático, mas sim no comportamento dos cidadãos que ultimamente o têm vaiado nos lugares onde ele vai. Ao contrário do que disse o presidente, as vaias não ameaçam a democracia. Porque elas são democracia. Mas vaiar é ainda pouco, embora um bom começo, porque já passa da hora de a população manifestar-se de forma mais intensa e contínua, contra os desmandos e a baixa eficiência governamental. E não só com o supremo mandatário mas com os homens públicos no geral que cometem irregularidades ou se locupletam e abusam da função, ou pouco de útil produzem.
Lula e o PT foram os campeões em vergastar governos no passado - e certamente tinham bocados de razão - e quando o faziam estava exercendo um direito de cidadania. Mas os dias correm e, caprichosamente, podem mais tarde colocar no palco os que eram platéia e bradavam apupos. Foi o então sindicalista e ativo militante quem inventou o termo maracutaia, para referir-se às falcatruas nos governos, e como por efeito bumerangue nunca houve tantas maracutaias quanto no seu mandato. E várias delas articuladas por gente de seu partido, que subiu ao poder levantando a bandeira da moralidade.
Quando o presidente Juscelino Kubitschek foi vaiado intensamente durante três minutos seguidos, pelos estudantes da UNE no Rio de Janeiro, conseguiu reverter a vaia em aplauso quando, terminado o ruído da multidão, proclamou: ''Feliz de um povo que tem a liberdade de vaiar o seu presidente da República''. Embora também houvesse os que não gostavam de JK, ele foi certamente o mais amado dos presidentes depois de Getúlio Vargas. Porque ambos - o primeiro um ditador mas também um democrata quando se tratava de causa social do povo - realizaram obras, empreenderam grandes mudanças no rumo da modernidade e melhoraram o padrão de qualidade do Brasil. Até cantigas populares exaltavam esses dois estadistas.
Certo é que democracia não é apenas o direito de votar e ser votado e de vaiar governantes, porque só se evidencia aí um aspecto político, sem correspondente na distribuição equitativa dos bens a toda a população (diz-se a democracia econômica). Mas a vaia é um bom começo e pode ter desdobramentos mais contundentes. É quando os cidadãos assumem posições de luta, enfrentam resistências destemidamente e põem abaixo estruturas de arbítrio.

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