As urnas engoliram o boto - Míriam Guaraciaba
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 06 de outubro de 1998
Míriam Guaraciaba 
Os institutos de pesquisa nunca erraram tanto e a imprensa, de maneira geral, nunca embarcou em tanta canoa furada. Quem ouviu falar de José Orcírio dos Santos, o Zeca do PT? Pouquíssimos eleitores sabem que Zeca disputa o governo de Mato Grosso do Sul com reais chances de vitória. Zeca vai brigar no segundo turno com o tucano Ricardo Bacha, do PSDB. Alguém conhece Ricardo Bacha?
As pesquisas de tendência de voto no Mato Grosso do Sul falavam em favoritismo de Pedro Pedrossian, velho cacique político. Zeca aparecia em terceiro lugar, bem abaixo do ex-governador e de Bacha. E Marconi Perillo, o jovem de 36 anos que ameaça o reinado de Íris Rezende, o mandachuva de Goiás?
Será que os eleitores enganaram os modernos e preparados institutos de pesquisas e traíram os sábios jornalistas? A verdade apareceu nas urnas: os 106 milhões de brasileiros deram a sua versão dos fatos. Em muitos estados, a versão verdadeira. Diferente da que contamos.
Pode-se alegar muita coisa como desculpa para os graves erros de previsão eleitoral. A imprensa pode dizer que usou os números dos institutos. Mas porque demos tanta importância a esses levantamentos? Os institutos podem dizer que os eleitores erraram na hora de votar.
Então o que aconteceu no caso de Brasília? Os eleitores erraram o número de Joaquim Roriz e acertaram o de Cristóvam Buarque? Aqui, não apenas Roriz perdeu votos - se aceitarmos apenas a tese de que eleitor errou ao votar na urna eletrônica - como Cristóvam ganhou.
No Amazonas, Gilberto Mestrinho estava praticamente eleito para o Senado, e Amazonino Mendes disparava para o governo. Os institutos de pesquisa diziam isso. Mestrinho confiou tanto na vitória que achou que ganharia sem precisar fazer campanha.
Os eleitores, mais uma vez, desmentiram as previsões. Preferiram a renovação e mandaram para o Senado o ex-reitor da Universidade Federal do Amazonas, Marcos Barros, do PT. Para o governo, Amazonino tem dificuldade de garantir a vitória no primeiro turno.
Mestrinho encerra a carreira política e dá novos ingredientes à velha lenda de que nas águas cristalinas do Rio Negro o boto cor-de-rosa engravida mocinhas virgens com a mesma voracidade com que engole votos. Durante décadas, conta a história, urnas inteiras submergiram.
São as surpresas de 1998. Numerosos equívocos. Assunto para horas a fio de debates. Matéria para análises acuradas. Por que erramos tanto? Só não se pode atribuir a culpa ao eleitor. Esse é o único sábio. Conhece a história de cor.
A ex-deputada Beth Azize, de São Paulo, abandonou a tribuna, mas não o gosto pela política. Surpresa e feliz com os resultados positivos que a esquerda vem obtendo em todo o País, criticou a incapacidade dos institutos de pesquisa de retratarem a última semana de campanhas eleitorais.
Vitoriosa em cinco campanhas políticas - três vezes deputada estadual, quando governou o Estado de São Paulo interinamente, e duas vezes federal - Beth garante que tudo acontece nos últimos cinco dias. É impressionante a onda da reta final. Os institutos não conseguem medir, diz.
Isso explicaria a vitória de Eduardo Suplicy, em São Paulo? Há 15 dias, Suplicy estava empatado - 25 a 25 - com Oscar Schmidt. Ganhou com folga. E a expressiva votação de Arlete Sampaio? Será que 36% dos eleitores escolheram Arlete na última semana ou as pesquisas esconderam sem querer a intenção de voto?
E Olivio Dutra, no Rio Grande do Sul? Diziam as pesquisas que a eleição do governador Antonio Britto aconteceria no primeiro turno. Quase não chega ao segundo.
- MÍRIAM GUARACIABA é jornalista em Brasília


