Quem costuma navegar nos sites dos jornais ou assistir, nas televisões por assinatura, aos programas noticiosos e de entrevistas dos Estados Unidos, certamente notou depois do fatídico 11 de setembro, quando ocorreram os atentados terroristas mudança emblemática no discurso político de jornalistas, empresários, senadores, deputados, prefeitos, artistas, atletas e cidadãos em geral. As críticas, sátiras, piadinhas e insinuações contra a legitimidade da eleição do presidente George W. Bush ou sobre os erros de sua administração sumiram instantaneamente da mídia norte-americana. Agora, prevalece a figura institucional e a autoridade do presidente da República. No Congresso, não se fala em republicanos ou democratas. Há um só partido: a bandeira nacional. Nas empresas, empresários e trabalhadores esquecem eventuais divergências e trabalham dobrado.
A nação norte-americana mobiliza-se, com muita sinergia e coesão, para superar os traumas da maior agressão que sofreu em sua história. Todas as forças econômicas, produtivas, políticas, intelectuais, coletivas e individuais, num exemplo fantástico de voluntariado, somam-se para devolver a normalidade ao país. A tarefa não é fácil, mesmo para uma nação que experimentou nos últimos 10 anos um processo fulminante de crescimento e prosperidade, com uma situação de quase pleno emprego e que ostenta o estratosférico PIB de US$ 9,3 trilhões. Perder cerca de seis mil vidas, como se calcula nas tragédias do World Trade Center e do Pentágono, não é fácil.
No Brasil, segundo as estatísticas oficiais do próprio Ministério da Justiça, sob os escombros da imensa dívida social e da combalida estrutura da segurança pública, são assassinadas cerca de 60 mil pessoas por ano. É como se dez World Trade Centers desabassem todos os anos sobre nossas cabeças. No plano econômico, os impactos das incertezas externas e internas, depreciação cambial, elevação de juros e o apagão impactaram o nível de atividades, reduzindo a cerca de 1,5% as perspectivas de crescimento em 2001.
Estariam os brasileiros unidos e coesos, como os norte-americanos, para enfrentar suas adversidades? poderia perguntar um inocente estrangeiro. Então, ao assistir às brigas e discussões de baixo nível e alta agressividade entre parlamentares, à precipitação inadequada da campanha eleitoral de 2002, quando ainda há muito o que fazer no atual governo, e à ausência de um mínimo de tolerância e entendimento entre homens públicos, políticos e partidos, o estupefato estrangeiro não entenderia nada do que se passa...
Estupefatos estão os cidadãos brasileiros, ao assistirem diariamente às cenas tragicômicas e os impunes descalabros que se produzem no ambiente político/público. Indignação, porém, não é suficiente. É necessário ter postura pró-ativa diante da realidade. Nesse sentido, muito pode e deve ser feito, a começar no ambiente das empresas e no universo dos setores produtivos, nos quais se concentram de fato as forças motrizes da Nação.
Torna-se fundamental o entendimento entre trabalhadores e empresários, as duas verdadeiras forças que movem um país. No âmbito das negociações trabalhistas, sindicatos patronais e de trabalhadores devem buscar alternativas no bom senso. A retórica deve dar lugar ao diálogo argumentado e fundamentado, ao invés da disputa por vitórias de uma ou outra parte, buscando-se uma equação em que todos ganhem.
Felizmente, o Brasil não tem problemas com o terrorismo internacional. Entretanto, sofre com a violência que produz internamente e com os percalços de sua própria economia. Por isso, como ocorre nos Estados Unidos, a mobilização da Nação brasileira não precisaria ser norteada por leis, tratados ou normas. Bastaria a espontânea consciência de que as soluções dependem muito de cada um e da união de todos em torno de uma verdadeira causa de redenção nacional. Não adianta apenas lamentar, ao cabo de cada ano, as 60 mil vítimas da violência, que expressam o desabamento moral das torres do Brasil.


- SILVIO ROBERTO ISOLA é empresário gráfico e presidente do Sindicato das Indústrias Gráficas no Estado de São Paulo (Sindigraf)

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