As tetas do paquiderme - José Fernando da Silva
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quinta-feira, 27 de agosto de 1998
José Fernando da Silva 
O gigante está andando e não vai parar, disse ontem na Folha o candidato à reeleição Fernando Henrique Cardoso. Porém FHC se esqueceu de acrescentar que o grande paquiderme da América do Sul anda manco, com cara de fome e com as tetas quase esgotadas pela sede dos países centrais (leia-se G-7), propulsores da nova panacéia capitalista apelidada de globalização, remédio e veneno para todos os nossos males. Mudam-se os nomes, os apelidos, mas a lógica é sempre a mesma: os países periféricos, como é o caso do Brasil, pagam a conta. O paquiderme anda, mas de quatro.
Já escrevi aqui que só um milagre poderia salvar a oposição. Anêmica de propostas, ela não conseguiria reagir por si só contra o teatro montado para reeleger FHC. Pois é, o milagre pelo jeito começa a acontecer. E vem lá da Rússia soprado pelos ventos siberianos que estão causando arrepios na equipe econômica do governo brasileiro. As bolsas despencam no mundo todo e ninguém, com um pouco de juízo, ousa prever o que pode acontecer.
FHC se antecipa, e afirma que se algo der errado, se o Real afundar, se o desemprego aumentar e outras balelas do gênero, tudo será culpa da oposição, desta gente que torce contra. Todos estão sujeitos a dizer tolices, evidenciava Montaigne, o mal está em as enunciar com pretensão. E quão pretensioso tornou-se o nosso vaidoso sociólogo-presidente. Render-se ao evidente não é torcer contra, é ser apenas lúcido. Ao dizer asneiras, como analisou Lula, FHC julga a Nação composta por um punhado de parvos.
FHC enfrenta grande dificuldade em explicar que o Real possui raízes afundadas em nuvens e que, mais dia ou menos dia a casa cai. O leilão da Telebrás rendeu ao Brasil US$ 6,6 bilhões e só neste mês já deixaram o País US$ 7,996 bilhões. Nesta velocidade de dissipação do capital especulativo, nossa falência é iminente, uma questão de tempo. O desespero é tanto, que a assessoria política de FHC pretende um esforço concentrado para decidir a eleição no primeiro turno. Esperar mais um pouco é correr o risco de entregar a rapadura para os desdentados da oposição.
Honestidade em política é uma virtude facultativa. Há alguns dias, antes dos primeiros sinais de crise séria na Rússia, Fernando Henrique prometeu criar cerca de 8 milhões de empregos. Assustado com o tamanho do próprio nariz, que não cansa de crescer, FHC passou um pito na equipe que elabora seu programa de governo e pediu para seus economistas botarem o pé no chão. Resultado: a apresentação do programa de governo de FHC ficou adiada para o próximo dia 3. Lula também exagera, promete 16 milhões de empregos. Mas só que o candidato do PT aparentemente não tem os mesmos compromissos de Fernando Henrique com os grupos financeiros internacionais e, com certeza, fará a reforma agrária, o que torna os seus números menos oníricos.
No auge da expansão do Império Romano, Tibério recusou-se a vencer o germânico Armínio pelo envenenamento. Ele preferiu enfrentá-lo no campo de batalha. Tibério optou pela honestidade em vez da perfídia. Ao acusar a oposição de estar torcendo contra, Fernando Henrique opta pelo envenenamento e deixa o campo de batalha das idéias. FHC ganharia muito se deixasse de dourar a pílula e dizer realmente o que pode acontecer com o seu precioso Real, caso contrário, os brasileiros acordarão no dia 5 de outubro com um pacotaço em suas portas, com o dinheiro valendo quase nada e a mais violenta das recessões. Neste cenário, restariam somente suas ufanistas viúvas para carpir o paraíso perdido.
JOSÉ FERNANDO DA SILVA é jornalista da Folha em Londrina


