Há quase sessenta anos, o editor da revista Time, Henry Luce, declarou em um agora famoso ensaio que este seria o ‘‘Século Americano’’. Para satisfação de alguns e consternação de outros a profecia de Luce se mostrou, em geral, acertada. Na era do pós-guerra, os Estados Unidos prevaleceram em seus muitos conflitos com a União Soviética.
Houve momentos, contudo, como o período subsequente ao conflito do Vietnã e, inclusive, recentemente, em que as dificuldades internas induziram a muitos observadores concluírem que o império norte-americano se achava em uma irreversível decadência. Agora, quando não há nenhum contrapoder que barre a supremacia, os EUA aparecem em condições de dominar não somente os últimos pedaços deste final de século como também, pelo menos, uma parte do próximo.
Desde a antiga Roma nenhuma outra nação dominou a tal ponto o mundo conhecido de seu tempo como acontece agora com os EUA. Seus dois mais prováveis rivais, a longo prazo, são a União Européia (UE) e China que, por enquanto, não têm poder para disputar a supremacia. Seguros do domínio no futuro próximo, os analistas políticos norte-americanos estão começando a discutir sobre como fazer melhor uso desta brilhante oportunidade e da conseguinte responsabilidade.
Ainda que os enfoques variem amplamente, têm surgido três correntes de opinião: os neoisolacionistas, os partidários da hegemonia norte-americana e os que propiciam uma segurança cooperativa. Com raízes nos primeiros dias da república, quando o pai-fundador George Washington advertiu contra a possibilidade de se enredar em alianças, o isolacionismo viu desvanecer seu último apoio central com a entrada dos EUA na 2ª Guerra Mundial.
Hoje em dia o isolacionismo está concentrado no campo da extrema direita. Seus pontos de vista foram expostos de modo mais claro pelo ex-aspirante a candidato presidencial Patrick Buchanan. Raramente obtendo mais do que 15% das sondagens de opinião, o sentimento neoisolacionista goza de maior apoio nos setores direitistas do Partido Republicano que orientaram o Congresso a partir dos últimos quatro anos.
O neoisolacionismo também consegue uma mais forte influência através de usa combinação com a agora dominante doutrina na política externa norte-americana, autodescrita por seus proponentes como uma ‘‘hegemonia benigna’’. Este ressurgimento do isolacionismo e dos sentimentos imperialistas foram expostos com vigor inusitado pelo presidente do Comitê de Relações Exteriores do Senado, Jesse Helms.
Os hegemonistas dominam a ampla corrente central das elites políticas dos dois principais partidos norte-americanos. Com uma suprema segurança de si mesmo, Roberto Kagan, um dos principais integrantes dessa posição, defende um império sem complexos de culpa e declara que ‘‘a benevolente hegemonia exercida pelos EUA é boa para um vasto setor da população mundial’’.
Kagan quer que os EUA tomem com audácia as rédeas do poder mundial e imponha sua superior vontade e sabedoria a um mundo que, apesar de suas queixas sobre a hegemonia, prefere amplamente a liderança norte-americana ao caos mundial que, efetivamente, poderia sobrevir.
Seus enfoques são compartilhados pelos principais responsáveis pela política norte-americana, ainda que nem sempre se expressem tão descaradamente. Por exemplo, David Rothkopf, ex-importante membro do governo de Bill Clinton, que escreveu recentemente que ‘‘os norte-americanos não deveriam negar o fato de que entre todas as nações do mundo, a sua é a mais justa e o melhor modelo para o futuro’’. E o subsecretário do Tesouro Lawrence Summers, que qualifica os EUA como ‘‘a primeira superpotência mundial não imperialista que olha para o exterior’’.
Um terceiro segmento de fazedores da opinião pública, menos apaixonado pelo poder norte-americano e com melhor conhecimento de suas limitações, argumenta em favor de um uso mais moderado da influência norte-americana e de uma atuação mais cooperativa que imperialista. Charles William Maynes, ex-editor da revista Foreign Policy, defende que a doutrina hegemonista é sintoma de um crescente delírio geopolítico, que custará um alto preço à economia norte-americana e provocará mais ressentimento que respeito para o país por parte das demais nações.
Ao citar a obsessão do establishment por manter um grande poder militar, Maynes recorda que Henry Luce, que não era em absoluto um liberal, exortou em seu ensaio ‘‘American Century’’ aos norte-americanos a dedicarem 10% de cada dólar do orçamento com defesa à erradicação da fome no mundo.
Com o atual orçamento da defesa dos EUA, que é de US$ 260 bilhões anuais, US$ 26 bilhões por ano poderiam bem servir aos efeitos que defendia o editor da Time. Nos anos recentes, alguns analistas têm desenvolvido detalhados programas cooperativos para a política externa de Washington mas suas receitas continuam de quarentena e não são consideradas no debate central.
Contudo, muitos norte-americanos, atuando como cidadãos independentes, se unem a seus colegas em todo o Planeta, em esforços cooperativos, promulgando suas próprias políticas externas, às vezes enfrentando seu próprio governo. Mas as tentações imperialistas são quase irresistíveis. A visão das elites da política norte-americana pode às vezes ser tão estreita como amplas são suas ambições.
- MARK SOMMER é jornalista e ensaísta norte-americano

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