As teias do amanhã
A política é um conjunto encadeado de situações. Cada situação gera fatos e estes, por sua vez, desencadeiam novas posições e, assim, sucessivamente. A eleição dos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado terá influência no panorama eleitoral de 2002. O agravamento da doença do governador Mário Covas já está provocando marolas no processo sucessório paulista e, quiçá, no panorama geral da sucessão presidencial. Estes eventos estão entrelaçados e, de sua evolução, pode-se distinguir alternativas diferenciadas.
O PFL tem um desafio monumental: desfazer o nó que une PMDB e PSDB. Vai ser muito difícil. Só há uma pessoa capaz de retirar a candidatura de Aécio Neves (PSDB) à presidência da Câmara: ele próprio. E mesmo a interferência do presidente Fernando Henrique será considerada inoportuna, porque o tempo da intermediação teria passado. Retirar a candidatura seria retrocesso, um ato que poderia queimar a imagem do deputado tucano.
Mas, é claro, o presidente da República teria força moral para refazer as negociações. Duvida-se que tenha tal interesse, em vista do significado do gesto. Ele dá a impressão de que, desta feita, não vai interferir, até para punir ACM, que se mantém firme no veto ao senador Jader Barbalho. Se a situação perdurar até 14 de fevereiro, a questão vai à plenário e, mesmo descontadas as tradicionais traições, Aécio será o virtual vencedor. Derrota para o PFL.
Diante desse quadro, aventa-se com a possibilidade de fragmentação do mais orgânico partido brasileiro. ACM sairia a campo, correndo o País com a bandeira da moralidade pública e ensaiando uma candidatura presidencial. Mas não levaria consigo todos os pefelistas. Teria condições de navegar sozinho? Ou o PFL se conformaria com mais ministérios e, unido no centro do poder, começaria a lutar novamente para colocar na chapa majoritária um dos seus quadros no lugar de vice?
A divisão da aliança governista, pouco provável, cairia como uma luva nas mãos das oposições, que, entusiasmadas, se motivariam a permanecer unidas. Só a unidade oposicionista poderá levar a melhor contra a situação. Nesse candidato, a luta para uma candidatura única envolveria os contendores Lula, Ciro Gomes e Itamar. Ciro estaria amarrado a Tasso Jereissatti. Se este sair candidato, Ciro não sai. Dois candidatos do Ceará, no mesmo pleito, e apresentando-se como irmãos siameses, só se viabilizam como milagre de Padre Cícero.
A este quadro soma-se a força, hoje quase mística de Mário Covas, cuja morte anunciada por ele mesmo está descortinando climas e conversas até então proibidas. Geraldo Alckmim terá de assumir o governo e certamente abrirá uma intensa discussão sobre sua inelegibilidade. A emenda 16 da Constituição diz que aqueles que sucederem ou substituírem presidentes, governadores e prefeitos, só poderão ser reeleitos uma vez. Substituir pode durar o tempo de um dia ou três anos e onze meses. Se for inelegível, abre as portas para José Serra, se este não viabilizar seu nome à presidência da República.
E aqui começa a encruzilhada. Covas quer antecipar o processo e lançou o nome de Tasso. Antes de deixar a cena política, quer influir sobre os caminhos do futuro. Mas se Covas desaparecer de cena, Serra poderá tentar ganhar novos espaços. Se for o candidato do PSDB, Ciro Gomes seguramente irá para a luta, até possivelmente com o apoio de Tasso.
Como se observa, as coisas não são tão simples. O destino tem sua cota de influência sobre o amanhã. O PMDB, se fizer Jader presidente do Senado, será uma força a se considerar nesse cenário, seja na frente situacionista, seja até na frente oposicionista. Nada está descartado.
Fernando Henrique, com a economia forte, e um grande programa social, será, evidentemente, o principal eleitor. Por enquanto, os olhos devem contemplar o cenário paulista, onde um governador, dentro de sua humanidade sofrida, procura, como um leão desesperado, sobreviver, dando seus gritos de guerra. E anunciando que, mesmo cambaleante, quer assinar com grandeza o livro da história.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e consultor político
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