Desde o dia 14 de julho - com a aparição de uma suposta imagem de Nossa Senhora no vidro da janela de uma casa em Ferraz de Vasconcelos, no Estado de São Paulo, e, na semana seguinte, de outra imagem em São Miguel Paulista, a uma distância de 10 quilômetros uma da outra - o Brasil inteiro indaga sobre o sentido destas aparições, se são ou não fenômenos sobrenaturais, o que podem representar e o que está por trás da força que possuem em atrair multidões de devotos, pessoas simples, gente do povo, que não questionam muito sobre o assunto, mas creêm com o coração tratar-se de imagens que expressam alguma manifestação divina.
O especialista em Parapsicologia, Pe. Oscar Quevedo, chegou a visitar a casa em que abriga a imagem, em São Miguel Paulista, e defende a tese de que pode estar havendo um fenômeno ''simulacra'', isto é, as pessoas projetam, em lugares diferentes, imagens idênticas que significam uma ansiedade específica, em determinado contexto. Há um lado positivo nos fatos atuais. As supostas imagens demonstraram que a devoção popular brasileira é ainda muito forte, a despeito da urbanização e dos tantos e complexos problemas sociais da pós-modernidade.
Mesmo após o Censo 2000 ter indicado uma redução do número de fiéis católicos em nosso País, percebemos, por fenômenos dessa natureza, o quanto a fé popular é muito forte e o quanto as pessoas buscam ardentemente a Deus.
Uma Comissão de especialistas escolhida pela Igreja Católica, já está examinando as imagens, sob todos os aspectos, respeitando os sentimentos da população, mas - como é da tradição da Igreja, - está agindo com bastante prudência, para evitar interpretações precipitadas e equivocadas.
Geralmente, na história da Igreja, as aparições não ocorrem sem trazer uma mensagem específica para quem a recebe, reforçando a necessidade de mais oração e empenho por uma vida ética e moral verdadeiramente cristã. No caso das recentes aparições, estamos vendo apenas o surgimento de supostas imagens, sem que alguma mensagem tenha sido feita (por quem a viu primeiro), especialmente para que as pessoas não deixem de seguir os mandamentos de Deus.
Muitos dos que vão até Ferraz de Vasconcelos, fazem isso movidos por fé. No entanto, entre os que lá estão, há, certamente, curiosos e oportunistas, sem falar dos aproveitadores da boa fé. Por isso, o vidro com a imagem deveria ser retirado de lá e levado para onde fosse possível uma avaliação mais criteriosa.
Vale lembrar que (segundo o estudioso Antonio Vázques), ''o mundo ocidental vive tensão tal de insegurança e de perda de valores religiosos, que parece constituir, segundo alguns psicólogos, terreno preparado, pela lei de compensação psiquicamente equilibradora também no nível coletivo, para esse tipo de fenômeno, como ocorre com os óvnis''. Isso quer dizer, que é preciso sermos cautelosos antes de tirarmos alguma conclusão final a respeito desta questão.
Os fatos falarão por si só. Devemos, portanto, aguardar o desenrolar dos acontecimentos, respeitando os que têm fé, mas salientando que a verdadeira fé tem de ser racional, convicta e coerente.
VALMOR BOLAN é doutor em Sociologia e diretor geral da Faculdade Editora Nacional (FAENAC) em São Caetano do Sul (SP)
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