As revoluções da humanidade
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segunda-feira, 28 de janeiro de 2019
Nunca se falou tanto em homossexualismo como nestes tempos, e embora a maioria no Brasil - com base no que se ouve - ainda não aceite com naturalidade a relação de pessoas do mesmo sexo, criou-se já um consenso de que é prudente não opinar publicamente a respeito. Esse tipo de relação existe desde o alvorecer da humanidade. No caso dos humanos (porque a homossexualidade existe também entre certos animais), lê-se da literatura sobre temas transcendentes que alguém que foi homem em sucessivas vidas anteriores, e portanto com afeição por mulheres, e que na atual existência nasça mulher, guarda na memória celular esse sentimento e tende a continuar com atração pela mulher. O mesmo se dá com quem viveu tantas vidas como mulher, portanto com atração pelo homem, mas renascendo homem aguarda a afeição antiga. Faz sentido. E não só com as relações afetivas, mas também com outras tendências e pendores.
Há quem aprecie dois homens se esmurrando nos ringues, mas se escandaliza se eles se beijam. Não sou tão vanguardista e ainda não me libertei plenamente de um certo preconceito, mas passei a compreender melhor essas relações depois do que li dos escritos citados. E, divagando sobre o tema, lembro-me que quando da celebração do aniversário de criação da República Democrática Alemã (a comunista) o líder soviético Leonid Brejnev beijou na boca, diante das autoridades presentes, o líder alemão Erich Honecker. Dez anos depois, outro chefe de Estado russo, Mikhail Gorbachev, repetiu o gesto, ao selar-se a queda do Muro de Berlim, beijando também na boca o mesmo Honecker. Porque na então União Soviética o beijo fraternal entre os homens era um costume normal, e penso que ainda é. (Deixo aqui o registro de que algum tempo antes visitei a Alemanha, e por minha condição de jornalista, fui autorizado a transpor o muro e visitar o outro lado, e viria a entender a insensatez da existência daquele paredão de 150 quilômetros, a mesma reação que sinto agora com o propósito idêntico do presidente Donald Trump de construir um muro na divisa com o México. Tempo da intervenção militar no Brasil, essa visita ao setor comunista quase me custou a cadeia, no retorno).
A revolução cultural (ou contracultural) de 1968 e que gerou uma profunda mudança estética nas artes e nos costumes, em todo o mundo, foi um fenômeno que abriu portais de libertação dos comportamentos humanos e que se reflete até os nossos dias. Eu visitava Chicago nesse ano e fui assistir ao festival de Woodstock, que se realizava no extenso Ravinia Park. Vi ali cem mil jovens acampados, com shows de bandas estridentes e os casais, inclusive adolescentes, entrando com sleep-bags para dormirem juntos. Aquele era um brado de liberdade da juventude norte-americana, como nunca ocorrera antes, e que se irradiaria em todos os países, Brasil incluído. Os pais não puderam conter essa onda avassaladora.
Enquanto isto, em São Francisco, berço da beatmania, os hippies desfilavam pela extensa rua Haigs com seus trajes extravagantes, e os tabloides dirigidos a essa comunidade publicavam anúncios com propostas de encontros íntimos e detalhando gostos e atributos pessoais. Eu também estava lá, e perguntei a meu guia se aquilo era permitido, e a resposta foi que a nação americana - ainda hoje a mais democrática do mundo - preferia liberar essas licenciosidades do que ferir o princípio das liberdades individuais. Desde então vivenciei cenas semelhantes, embora mais comportadas, em certos pontos da cidade de Tóquio e na Europa. O sexo livre, inclusive no Brasil, passou a ser permitido, e as casas de meretrício faliram...
WALMOR MACCARINI, jornalista



