Primeiro é preciso ficar tudo combinadinho. Se é mesmo para fazer uma democracia, tem que se colocar uma parte do pessoal no governo e outra na oposição. E as regras têm que ser seguidas ao pé da letra. A oposição, no começo, pode ser até menor. Mas tem que haver compromisso. Se os do contra crescerem, assumem o poder, através de eleições claras, disputadas de forma legítima e com toda a limpeza de praxe. Certo? Mais ou menos. Existe um pessoal que tem a mania de procurar esquecer as regras do jogo.
O diabo é que aqui não existe muito essa tal de alternância no poder. Uns sempre ganham e os outros têm que enfiar a viola no saco. Os tucanos, para chegarem lá tiveram que fazer associação com os antigos ocupantes do terreno, principalmente o PFL e o PMDB partido que até já foi oposição, mas cansou.
Não é a maioria, mas um setor expressivo do grupo dos mandachuvas, entende que a oposição pode espernear, votar contra, reclamar, mas tem de estar lá, firme, para ser derrotada. Às vezes, esse acordo não funciona.
No caso da subcomissão que investigava o Judiciário, no âmbito da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), do Senado, isso aconteceu. Quando as investigações chegaram em Eduardo Jorge, o ex-todo-poderoso secretário-geral da Presidência, a maioria criou tantos obstáculos aos pedidos da oposição que o pessoal achou melhor tomar outro rumo. A oposição simplesmente resolveu abandonar a subcomissão, já que eles não podiam nada. O resultado é que os governistas tiveram que encerrar os trabalhos da subcomissão, meio desmoralizados, porque não contaram com a oposição para legitimar o esquema de jogar a sujeira para debaixo do tapete.
Mas não é só no Congresso que a oposição está lá firme para dar o seu aval ao que é feito. Nas assembléias legislativas e nas câmaras municipais acontecem o mesmo. Em muitos Estados e municípios importantes as oposições fazem até parte das mesas diretoras, que comandam os legislativos. O que significa que estão dispostas ao chamado diálogo, à negociação.
E é um exemplo, mais do que claro, da intenção desses senhores, mais aguerridos pode-se dizer assim de se sentarem em volta de uma mesa para conversar e buscar alternativas para os problemas que estão postos. Foi-se o tempo dos incendiários, dos que tentavam desestabilizar as estruturas, dos furiosos, daqueles que provocavam calafrios nas chamadas classes produtoras.
A oposição quer dizer aqui o PT, rodeado por uma série de outros partidos menores, mas que ainda não conseguem sustentação fora das asas da agremiação de Lula. E o PT sai com maior envergadura dessas eleições municipais. Sai com um cacife para buscar um lugar melhor nessa mesa onde são decididos os destinos dos que não mandam.
O PT não sai fortalecido das eleições por causa dos números. O PT já é presença nacional há pelo menos dez anos. Ele tem no seu currículo boas administrações e, nos seus quadros, algumas das melhores figuras da vida nacional. E aí talvez esteja o ponto que diferencia o PT de hoje com o PT de 20 anos atrás, do estádio da Vila Euclides (em São Paulo), em São Bernardo as suas figuras. Se esse pessoal que agora alcança o poder nos municípios, alguns em regiões estratégicas, mostrar que não está para brincadeira, as coisas podem adquirir novas configurações.
Primeiro internamente. O crescimento de um determinado grupo vai, com toda a certeza, mudar a discussão do partido sobre as estratégias para as eleições de 2002. E nessa nova configuração o próprio nome de Lula como candidato eterno do partido à Presidência da República terá de ser também rediscutido. A questão das alianças deve voltar com muito mais força à pauta. Isso porque o PT nunca foi chegado a ter sócios, mas já existe um setor expressivo do partido que já está convencido que só por meio de alianças as possibilidades de chegar ao poder ficam palpáveis.
Os pessimistas torcem o nariz em pensar nessas transformações. Mas aquele grupo de intelectuais que, de mansinho, está levando o PT por esse caminho considera que a transformação pode ser feita sem que o partido perca as suas características e nem as suas convicções.
Vencido esse obstáculo interno, fica fácil suplantar as outras dificuldades como o populismo que ainda resiste galhardamente nas entranhas do PT, a reação à Lei de Responsabilidade Fiscal e, principalmente, o MST. O PT há muito tempo não tem influência dentro do MST, mas a ligação entre um e outro sempre é feita. Tirando esses ‘‘probleminhas’’, agora tudo fica mais fácil para a oposição.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo

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