Desde a Antiguidade, a vingança tem sido a consequência mais grave do ódio. Não obstante o repúdio da cristandade a esse inimigo mortal, ele ainda é uma triste realidade entre os homens do século XXI. Parece ser inerente aos seres oprimidos por outros seres. Há, no entanto, aqueles que conseguem superá-lo; outros apenas convivem com o sentimento, sem demonstrá-lo publicamente, mantendo-o só para si próprio, e, finalmente, há aqueles que o põem em prática, ignorando seus efeitos, gerando assim a vingança.
O terrível episódio nos EUA, é um exemplo dessa vingança: não se destrói algo ou alguém, ceifando milhares de vidas, senão movido por um ódio interminável, enraizado no passado. Os altos investimentos em segurança não foram capazes de evitar o primitivismo terrorista, isso porque a ignorância humana é imprevisível, invencível e muito mais potente do que qualquer tecnologia, quando utilizada para o mal. Não adianta exterminar os portadores da ignorância. Ela sempre existirá; é hereditária e irremediável, principalmente quando estiver fundada em princípios religiosos e for praticada por fanáticos. O melhor caminho sempre foi o diálogo.
Provavelmente, os culpados físicos foram também vítimas da história. Os EUA são ''filhos'' da Inglaterra, que foi a grande nação militar e econômica do século XIX, líder da Revolução Industrial, que expandiu seus domínios, impôs uma língua e uma cultura aos dominados. Isso fez com que atraísse adversários e possíveis invasores, interessados em destruí-la. Houve guerras e, atualmente, quase todas as ex-colônias inglesas são independentes. Assim, todas essas qualidades se concentram, hoje, sobre a ex-colônia (EUA), que não só herdou a capacidade de desenvolvimento dos ingleses, mas também o ódio e a repugnância das outras nações menos favorecidas. A metrópole (Inglaterra) já não reconhece a ex-colônia (EUA) e tampouco com ela pode competir.
Os EUA, desde a sua independência, em 1776, mantiveram uma luta para chegarem à liderança mundial; o ''American way of life'' tornou-se uma obsessão. Que inimigo suportaria tal êxito, a custa de tanta miséria alheia?
A atitude radical de Bush perante as causas internacionais foi apenas a gota d'água para toda essa barbárie. Com intrigas ou não, Clinton mantinha invariavelmente o carisma político tão necessário aos momentos decisivos; sabia dialogar com a oposição. Disfarçava muito bem a intenção ''democrática'' norte-americana; tinha, aparentemente, o poder de decisão e se valia dele para empurrar com a barriga a grande questão internacional de seu governo: o conflito árabe-israelense.
Em reuniões, Clinton, ao centro, tinha de um lado o palestino Arafat e do outro o israelense Barak (depois Sharon), e demonstrava sua ''eterna preocupação'' com o Oriente Médio. Além disso, não deixava, como Bush, transparecer sua empatia aos palestinos e seu apoio incondicional aos israelenses (fornecedores de petróleo aos EUA). Por outro lado, Bush simplesmente conseguiu destruir, com sua pose imperial, todo esse malabarismo da era Clinton; o mundo desacreditou da ''bondade'' que vinha do Norte; o príncipe voltou a ser sapo.
Depois de torcer o nariz ao Protocolo de Kyoto e apoiar declaradamente (ou interessadamente?) as causas israelenses, Bush boicotou a Conferência sobre o Racismo, em Durban, alegando que os EUA não apoiariam uma discussão sobre ''assuntos que fogem ao tema proposto'' para o evento, ou seja, a questão palestina. É bem provável que essa foi a desculpa inventada meio às pressas para se evitar um debate em defesa de uma minoria: os negros. Na verdade, não havia interesse americano em debater a questão, já que a vaga possibilidade de as vítimas do racismo, cometido pelos países ricos, reclamarem recompensações financeiras junto aos culpados atemorizou as superpotências.
A tragédia dos EUA foi um feedback dos terroristas à política externa americana e suas atuações pelo mundo. Os culpados? Teoricamente já não importa quem foi. A tragédia se explica por si só, a história se repete e independentemente da nacionalidade dos criminosos, os resultados são cosmopolitas: muitas nações se sentiram ''vingadas''. Esse foi o verdadeiro terror: ignorou-se as trágicas consequências em nome do ódio.
- RITA DE CÁSSIA SIMÕES MARTELINI é universitária em Londrina

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