As quatro forças da campanha
Gaudêncio Torquato
A campanha eleitoral deste ano será a mais profissionalizada de nossa história política. E a razão é simples: pela primeira vez, teremos a possibilidade de reeleição. As campanhas majoritárias, portanto, darão o tom maior. Os governadores que são candidatos à reeleição farão tudo ou quase tudo para continuarem nos cargos.
O quase fica por conta de certas limitações impostas pela legislação eleitoral, como participação em inaugurações e uso explícito da máquina governamental. A profissionalização decorre, ainda, das mudanças que se operam no pensamento social e dos avanços do marketing político.
Quatro forças tomarão conta das campanhas. A primeira força é o discurso. Mais que em outras campanhas, o programa do candidato estará acima da identidade pessoal, ou seja, o QUÊ prevalecerá sobre o QUEM. E essa preferência se alicerça no grau de amadurecimento do eleitorado, saturado com os perfis e com a mesmice. Há, claro, situações regionais em que os personagens estarão dando o tom maior, em função das disputas entre os grupos e famílias tradicionais. O foco do discurso levará em conta as demandas mais imediatas do eleitor. E as demandas, de acordo com todas as pesquisas, se amparam no conceito de proximidade. A micro-política ganha o lugar da macro-política. A país ingressa no terreno da distritalização.
A segunda força estará na organização. Uma campanha bem planejada e organizada reduz custos, maximiza energias, atira no centro dos alvos e posiciona o candidato numa escalada crescente. O planejamento há de levar em conta os volumes e a intensidade das ondas de comunicação e mobilização, num ritmo adequado, para que não se gaste toda a munição antes do final da batalha. Muitos candidatos, Maluf é um deles, perderam campanhas, porque não tiveram fôlego para chegar à praia. A organização pressupõe a mobilização de um exército de aliados, cabos eleitorais, sob a coordenação de profissionais nos diversos setores. O costume de se deixar tudo com os amigos pode colocar a campanha em apuros. Amigo, às vezes, mais desajuda que ajuda.
A terceira força é o marketing. Trata-se de um conjunto de técnicas, regras e sistemas para maximizar os potenciais do candidato e atenuar seus pontos fracos. O marketing bem feito melhora a posição do candidato. Mal feito, derruba-o. Sua base inicial está nas pesquisas qualitativas e quantitativas, necessárias para ajustar o discurso, alinhar pontos prioritários, averiguar o que se passa na cabeça e no coração dos eleitores. Define e estrutura os canais, as formas e as abordagens de comunicação, de acordo com as realidades locais. Não se importa esse modelo.
E é arriscado fazer isso, como alguns pensam, por teleconferência. O estrategista precisa se alimentar dos climas, dos embates, do calor das circunstâncias. São esses fatores que inspirarão as correções, as estratégias de mobilização dos grupos e das massas e os modos de articulação.
A quarta força são os recursos. Quem não tem bala não atira e pode ser morto. A campanha é como uma guerra. Há momentos de atacar, de defender, de se adiantar, de subir o morro, de descer a montanha. Pode-se começar atirando das margens para se chegar ao centro ou vice-versa. Mas a eficiência dependerá da munição. Com recursos, todas as áreas terão provisões para a batalha final. Não se pense, contudo, que o dinheiro de programa de privatização, levado a cabo por alguns Governos, fará milagres.
Primeiro, porque esse dinheiro não poderá ser usado à toa, em espécie, distribuindo-se uma verba aqui e outra ali. Poderá ser empregado em obras. Mesmo essas serão muito controladas. Esses recursos poderão criar indisposições e conflitos entre os próprios correligionários, que correrão em busca da mala preta. A negativa em atendê-los ou o atendimento diferenciado criarão ciumeira. Todo cuidado é pouco. A boa combinação das quatro forças será um grande trunfo.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP e presidente da ABCOP (Associação Brasileira de Consultores Políticos)

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