O episódio envolvendo a senadora alagoana Heloisa Helena no imbróglio da indicação do ex-presidente do BankBoston, Henrique Meirelles, para o Banco Central, poderá ter amplas repercussões na estrutura político-partidária brasileira. Pode estar nascendo - ou fortalecendo - uma nova sigla que venha a ocupar o vácuo deixado pelo Partido dos Trabalhadores com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva à presidência da República. As informações que vazam dão conta que o PT reserva munição pesada para seus rebeldes - entenda-se àqueles considerados pela cúpula como radicais. No caso do BC, os dirigentes petistas resolveram lançar mão de uma artimanha burocrática, fechando questão pela aprovação do nome de Meirelles. Traduzido em miúdos significa que nenhum parlamentar pôde contestar a decisão. A surpresa neste caso está na fórmula encontrada pelo partido para dirimir o problema.
Ao longo de sua existência o PT sempre se vangloriou por ser um partido democrático, aberto às discussões e capaz de conviver com os antagonismos típicos de qualquer democracia. Na verdade, o PT começa a conviver com o dilema entre ser governo e manter um discurso de oposição. Uma ala, comandada pelo deputado federal e futuro chefe da Casa Civil, José Dirceu, já deu o tom da balada: o partido é governo e terá que arcar com ônus da função. Acontece que ser governo não é tão simples como parece. A articulação do ministério de Lula é um exemplo típico desta mixórdia e o caso do Banco Central é apenas mais um detalhe. Aliás, sua eleição foi fruto de um rearranjo político-partidário coordenado por Dirceu e que deu uma nova fisionomia - inclusive ideológica - ao partido. Daí a razão deste prenúncio de racha interno, uma vez que a ala tida como radical não se sente devidamente prestigiada pelos esforços despendidos ao longo de mais de duas décadas de militância.
Segundo os resultados das urnas, algo em torno de 30% dos parlamentares eleitos pelo PT nas últimas eleições, entre senadores e deputados federais, fazem parte da chamada esquerda petista. A eles teria restado pouco espaço de manobra no partido. Daí que, dentre as opções aventadas, está à formação de uma nova sigla ou a transferência em bloco a outra, afinal, o espectro político até então ocupado pelo partido está vazio. Há quem diga que a migração seria ao Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados - PSTU, afinal sua postura ideológica estaria mais afim com os prováveis migrantes.
Caso isso venha a se suceder, o governo do presidente Lula será vítima de uma oposição implacável em dois flancos. De um lado os que irão cobrar uma posição xiita dos tempos pré-governo, provavelmente apoiados por movimentos sociais como o MST; de outro, os inquilinos recém despejados do Planalto - PSDB e uma ala do PMDB - que buscarão recuperar o espaço perdido. Juntos, formam uma tropa de choque capaz de incomodar os petistas. O mais grave no entanto, para o PT, será o desfalque no Congresso de uma parcela significativa em sua base de sustentação política. Como se vê, o ano de 2003 promete ser politicamente repleto de grandes emoções.
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba

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