Na sua terceira viagem ao Brasil, alquebrado, envelhecido, semblante abatido e cansado, o papa João Paulo 2º parece simbolizar através de seu físico abalado pelo atentado que sofreu, pelas doenças que o acometeram e pelo peso de 19 anos de pontificado, as dificuldades pelas quais a Igreja Católica vem passando. Afinal, mesmo que continue se afirmando que somos ‘‘a maior Nação católica do mundo’’, as atitudes da grande maioria dos que aqui se dizem católicos contrariam esta espécie de slogan, que talvez tenha espelhado alguma verdade numa época em que a urbanização não havia se acelerado nem os meios de comunicação haviam transformado o mundo numa ‘‘aldeia global’’, processos que contribuíram para alterar formas de pensar e, consequentemente, de comportar.
É claro que essas transformações processadas em âmbito mundial, e que nos atingem a partir de nossa maneira de ser enquanto povo, por maiores modificações que possam trazer no seu bojo, não têm o poder de arrancar o sagrado do coração do homem. Diria mesmo que o período de transição que se atravessa, e que com suas crises mergulha muitas vezes o ser humano em dificuldades e angústias, justamente o induzem a buscar algo que o sustente de forma supranatural. Essa reação, que geralmente redunda na busca de apoio religioso no sentido de agregação a algum tipo de organização religiosa, reproduz em outro nível a reação individual de buscarmos com veemência Deus em nossos momentos de crise, quando então nos lembramos de implorar Seu auxílio ou pedir consolo a uma Força muita acima de nossa frágil e conturbada existência.
Portanto, a questão crucial quando se discute os problemas pelos quais passa a Igreja não diz respeito a uma hipotética perda do sentido espiritual no mundo de hoje, mas decorre da dificuldade da Igreja Católica de ir ao encontro das necessidades espirituais do seu rebanho.
Diante dessa afirmação, pode-se objetar que a Igreja vem se esforçando para se adaptar à modernidade. De fato, isto ficou evidente a partir das decisões tomadas no Concílio Vaticano 2º (1962-1965), convocado pelo papa João 23 e encerrado pelo papa Paulo 6º. Entre as diretrizes que emanaram daquela reunião, constaram: a substituição do latim na liturgia pelas línguas locais, a condenação da discriminação a outras religiões, a recomendação de que os ateus devem ser amados por serem também criaturas de Deus, a definição de um colegiado do papa e bispos dando a estes maior autonomia na condução da Igreja.
Este esforço de ‘‘democratização’’, de aproximação dos fiéis, entretanto, acabou radicalizando na corrente denominada Teologia da Libertação, e que foi exposta na Conferência de Medellín (Colômbia) em 1968. Segundo os teólogos da libertação, o ‘‘reino de Deus’’ está aqui mesmo na terra, é e espiritual mas, se for preciso - e sempre o é - pela violência fundamentada na luta de classes. Além disso, a caridade deve passar pela libertação dos oprimidos, o que enfatiza o elemento social, a luta política, enfim, o sentido temporal de redenção de Cristo. E no controvertido esforço para fundir Jesus e Marx, a hierarquia eclesiástica se torna dispensável, como num arremendo da sociedade sem classes profetizada por Marx.
Nos anos 60 e 70 a Igreja resolve ir ao encontro dos seus fiéis e cria as CEBs (Comunidades Eclesiais de Base). Atuando junto a sindicatos, associações de bairro e de favelas, e em movimentos sociais, as CEBs se converteram na ala que mais atua na Igreja em termos esquerdizantes. Mas possivelmente esta exagerada ênfase no aspecto temporal em detrimento do espiritual tenha sido uma das causas da evasão de católicos latino-americanos, incluindo os mais pobres, para as igrejas evangélicas, especialmente as pentecostais, o que vem ocorrendo também no Brasil.
A par disso, surgiram também na Igreja outros movimentos estimulados pelo Concílio Vaticano 2º, e que causam agora preocupação a CNBB. Entre eles estão: Renovação Carismática, cópia do pentecostalismo; Comunhão e Libertação, onde os líderes do movimento indicam a praxe pastoral; Movimento dos Focolares, baseado na veneração da figura da fundadora; Movimento de Schonstatt, vinculado excessivamente ao santuário; Caminho Neocatecumenal, com ascendência de leigos a partir de um modelo de vida consagrada. Segundo o documento ‘‘Teologia dos Movimentos’’, ‘‘os movimentos possuem estrutura própria, espiritualidade própria, orientação própria, líderes próprios’’. Conclui o documento ‘‘que os movimentos podem ser dentro da Igreja autêntico fermento evangelizador como podem criar igrejas paralelas’’.
Mas não param aí os motivos de preocupação do papa. Pesquisa Datafolha realizada recentemente no Rio e São Paulo entre católicos praticantes revelou que 68% dos entrevistados preferem ouvir sua própria consciência ao invés de seguir as regras do Vaticano, o que explica certas opiniões contrárias à normas da Igreja.
Resta, então, saber, se a visita do papa contribuirá para fortalecer a Igreja ou se não passará de mais um megaespetáculo, com muitas emoções e poucos resultados.

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