Quando falo, em meu artigo anterior, das pontes dinamitadas, quero dizer que o homem foi induzido a ignorar a sua realidade e a sua importância no âmago do macro-cosmo em que se encontra e do qual faz parte. Foi sugestionado a crer-se separado e sujeito a receber benesses de um Deus magnânimo mas também punidor e capaz de iras e de castigos.
Embora a imutabilidade das coisas que são e estão, a crença da separação levou o homem à angústia e à incerteza. Grandes equívocos de origem e que a tradição foi levando adiante afundaram o homem na passividade e na idéia de pequenez. As pontes dinamitadas pelo sistema religioso dominante impediram o homem de chegar à outra margem e conhecer-se a si mesmo.
O homem não conhece a sua natureza, não obviamente no sentido genético e nem dos dados contidos em seus documentos. Ensinaram-lhe que ele e Deus são seres distintos e distanciados, um ''aqui em baixo'' e outro ''lá em cima''. Falaram-lhe de bênçãos e punições, de glórias celestiais e de fogo do inferno. E assim ele passou a viver em situação de temor. Ensinaram-lhe a ser temente a Deus, pois leram e não entenderam o significado das palavras.
As barreiras do homem (ou os seus demônios, como quer a tradição religiosa do Ocidente) são os seus próprios egos, em contraposição ao seu Eu divino; em outras palavras, o homem terrestre em confronto com o seu próprio ser cósmico. Ambos em luta, como a travou o Mestre no episódio da montanha e narrada em seu célebre sermão. Uma luta que cessará quando o homem compreender o poder que encerra em si mesmo, mas por nem crer que o possua não se vale dele. Este o sentido de conhecer-se a si mesmo e de o homem saber o que é; e de saber que o seu Eu divino é prevalecente.
Da mesma forma que não se pode separar o ar em compartimentos, não é possível separar o homem de Deus - que não necessita salvar partes de si mesmo e nem as levará ao sacrifício da condenação, pois seria contemplar ou flagelar a si próprio. Imaginemos, apenas como ilustração, que as partes de uma árvores são individualidades, porém elas formam a árvore, e sem elas a árvore não seria. Assim como Deus, que sem o homem e sem todos os seres e todas as coisas ''do Céu e da Terra'', não seria.
Esta compreensão da unicidade tornou-se difícil para o homem, porque ele deixou-se dominar pela crença de que é um ser à parte e que um poder distante o vigia, na posição de julgador. A realidade não se altera por essa crença, mas o homem precisará redescobrir-se e conectar-se com o seu Eu superior e despertá-lo. Permite-lhe o livre arbítrio que ele não creia, mas assim o homem deixa de fazer as mesmas coisas que o Mestre fazia, ''e ainda melhor''. Não fosse isso verdade, e não lhe teria sido dito.
O Reino está no interior do homem. Basta que ele se conscientize disso e se valha desse poder. Deus - e não importa a forma como o imagine - está adormecido dentro dele, só bastando acordá-lo. Esta a conexão perdida no entendimento do homem e que o fez humano demais.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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