As pesquisas de opinião e o MST - João Pedro Stedile
As pesquisas de opinião e o MST
João Pedro Stedile
Nos últimos dois anos foram feitas diversas pesquisas de opinião sobre Reforma Agrária, por diferentes instituições de idoneidade reconhecida. Todas elas revelaram um fato incontestável: a opinião da maioria da população brasileira, em torno de 85%, é amplamente favorável à realização da Reforma Agrária. Além do elevado nível de adesão à necessidade da Reforma Agrária, houve também uma mudança de opinião em relação à década de 60 e aos anos da ditadura militar, quando influenciados por outra correlação de forças políticas na sociedade, os níveis de apoio eram bem menores.
Recentemente o ministro da Reforma Agrária, Raul Jungmann Pinto, foi à imprensa para divulgar uma pesquisa realizada pelo Ibope no período de 5 a 8 de março em todo o país. O ministro ressaltou apenas dois aspectos, dando-lhes uma importância extraordinária: primeiro, que 58% dos brasileiros tinham a opinião de que o MST não deveria invadir propriedades privadas produtivas. E, segundo, que 52% achavam que o MST era ligado ao PT. Pronto. Os setores da imprensa, que apóiam o governo, deram amplo destaque e o próprio ministro se encarregou de concluir que a opinião pública não apoiava mais o MST.
Felizmente, agora nos chega às mãos um relatório completo da pesquisa de opinião realizada pelo Ibope, que ouviu 3 mil pessoas em todo país, distribuindo sua amostra por capital, interior, renda etc. Nesse relatório nos chamam a atenção vários aspectos metodológicos que ajudam a explicar a pressa do ministro.
Primeiro, o Ibope fez 34 perguntas aos eleitores (maiores de 16 anos) e não apenas as divulgadas pela imprensa. Segundo, a maioria das perguntas já tinha resposta. O eleitor apenas escolhia. Há somente duas perguntas que permitem respostas espontâneas, em que o eleitor responde o que realmente pensa. Ora, quem elabora a pergunta e as alternativas de resposta já está induzindo os aspectos que quer para utilizar depois.
Mesmo assim, selecionaram-se algumas questões que podem nos dar uma idéia mais aproximada do que realmente o eleitor brasileiro pensa:
1. Na sua opinião, quais são atualmente os dois principais problemas da agricultura brasileira? As respostas foram espontâneas. E 41% responderam: não sei. Ou seja, não têm informações sobre a situação da agricultura. Depois, há 20% que disseram que é o descaso do governo, e 10%, falta de Reforma Agrária.
2. O senhor é a favor ou contra a Reforma Agrária? 80% são a favor, apenas 12% são contra, e 9% não opinaram.
3. No caso particular do seu Estado (onde vive) o senhor considera atualmente a Reforma Agrária como uma medida: (seguiam-se alternativas e respostas). 68% responderam que a Reforma Agrária é necessária e urgente. Essa é a média das regiões, sendo que no Nordeste atingiu 79%.
4. O senhor diria que atualmente o governo federal está tomando que atitudes em relação à reforma agrária? (seguem-se resposta e alternativas). Apenas 8% dos entrevistados disseram que o governo já está fazendo a Reforma Agrária. Todos os demais responderam alternativas que indicam que o governo não a está fazendo.
5. Há uma série de afirmações que são feitas ao entrevistado e, perguntando se ele concorda ou discorda, entre elas destaca-se: 78% concordam que é injusto um proprietário deixar milhares de hectares terra sem produzir, enquanto há milhares de pessoas sem terra para plantar.
6. Sobre a violência no campo, há duas questões que revelam a verdadeira opinião da população. Perguntou-se: O governo deve ou não utilizar a polícia para retirar os invasores de propriedades rurais? E 41% disseram que deve. Portanto, a ampla maioria é contra. Em seguida, perguntou-se: mas se a Justiça mandar retirar os invasores da propriedade rural, e estes estiverem dispostos a reagir, havendo risco de conflito, na sua opinião, o governo deveria... E 81% dos entrevistados responderam que o governo deveria procurar negociar com tolerância. E apenas 9% responderam que o governo deve cumprir a decisão da Justiça, mesmo com risco de conflito.
8. Finalmente há apenas duas perguntas em relação à atuação do MST, o que por si só já revela as possíveis intenções de quem preparou a entrevista. Pergunta-se: O senhor diria que o MST é um movimento pacífico ou violento? E então 61% responderam que o MST é um movimento violento. Por que não se permitiram respostas espontâneas para ver o que o eleitor pensa do MST? E se a pesquisa estivesse realmente estudando o comportamento dos diversos agentes sociais na Reforma Agrária, porque o ministro não mandou perguntar se a população achava os latifundiários pacíficos ou violentos?
De fato, ainda é inexplicável por que a maioria da população acha o MST violento. Basta lembrar qual é o caráter das notícias sobre o MST que têm saído na televisão. O MST só aparece nos meios televisivos quando há algum conflito. É muito difícil ver reportagens que tratem dos programas de educação, das escolas do MST, da produção, dos prêmios de reconhecimento internacional, etc. Ou seja, a opinião das pessoas já é resultado de uma campanha propositadamente programada.
A outra pergunta sobre o MST, diz: Na sua opinião o MST é ou não é ligado ao PT? E 52% das respostas foram que o MST é ligado ao PT. Não houve uma clara definição. Mas o que impressiona é a forma da pergunta. Poderia ter permitido várias alternativas, como, por exemplo, a que partido o MST é ligado. Ou simplesmente deixar respostas espontâneas.
Concluindo, ao analisar a amplitude dos dados coletados pela pesquisa e a forma como o Ministério da Reforma Agrária os utilizou na imprensa, pode-se dizer que, infelizmente, nesse caso, e talvez em muitos outros, a pesquisa de opinião não é um método científico para descobrir o que realmente as pessoas estão pensando ou opinam sobre determinados assuntos ou fatos de nossa sociedade. Mas, sobretudo, que as pesquisas são utilizadas como instrumentos de luta política, para manipular, enganar e ludibriar as pessoas, tentando por força da propaganda induzindo-as a uma determinada opinião.
- JOÃO PEDRO STEDILE é membro da Direção Nacional do MST.
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