O episódio do médium João de Deus é lamentável, mas não invalida e nem denigre a doutrina espírita, face aos benefícios que ela, ao longo dos milênios, têm proporcionado à humanidade em forma de esclarecimentos, curas de males físicos e psíquicos e evolução espiritual. Não é o primeiro caso de desvios de tal natureza, tem acontecido também com padres da igreja e marcadamente com empresários religiosos de igrejas eletrônicas, estes que vivem em função de arrecadar dinheiro - e já amealham fortunas. Não se imagina que tipo de tentação os acossa, mas sem dúvida é porque não têm convicção do que fazem e nem consciência de sua missão. No casos dos espíritas, pergunta-se por que não aconteceu o mesmo com Chico Xavier e com Divaldo Pereira Franco? Por que os guia uma fé inabalável e um espírito incondicional de servir, sem nada pedir em troca - nem dinheiro e nem glórias.

A vida concedeu a João de Deus - também conhecido como João de Abadiana - o atributo de curar, mas revela-se agora que seus desvios já vinham de bom tempo, um sinal de que, se ele conseguia curar enfermos, não pôde domar sua própria enfermidade. Revolta e decepção são os primeiros impulsos que se manifestam nas pessoas, pela perplexidade que tocou a muitos, face à natureza da obra que ele realizava e que o fez conhecido no mundo inteiro. Esse trabalho agora foi interrompido e não se crê que seja retomado.

É oportuno relacionar esse caso com os nossos governantes, aos quais foi outorgada a relevante missão de valer-se do poder político para proporcionar, por via de leis adequadas e da boa aplicação do dinheiro público, o bem-estar dos cidadãos. Mas não, eles se locupletaram, cuidaram de beneficiar a si próprios abocanhando polpudos ganhos, mais verbas descomunais de representação e mordomias de toda ordem. Uma grande oportunidade desperdiçada, para decepção geral do povo, que não esperava tanta desfaçatez e tamanha ausência de espírito público. Eles que se conscientizem de que, a quem muito se concedeu, muito se pedirá, e que essa conta chegará e terá de ser paga. E mais onerosa será essa cobrança para aqueles que, além de nada fazerem pelo bem comum, a ainda se apropriaram criminosamente de bens públicos, sonegados de atendimentos de saúde e de tantos serviços de bem-estar social. Idênticas contas terão de prestar os sabotadores que venham a levantar barreiras de obstrução aos bem intencionados. Será tão mais elevado o resgate a pagar daqueles conscientes do mal que causam.

Um líder, em qualquer campo de atividade, poderoso ou não, assume responsabilidade maior sobre quem comanda e exerce influência sobre uma pessoa ou grupos de pessoas. Assim se dá com os governantes, os educadores, os religiosos, os pais e mães, os veículos de comunicação, os comandantes de tropas militares responsáveis pela manutenção da ordem pública e da segurança nacional. Mas não ficam isentos de responsabilidade os cidadãos, que têm a obrigação de apoiar e defender as boas causa e os bons projetos dos governos, fiscalizá-los e combater os que - governantes e cidadãos - se revelem inimigos da paz social e do desenvolvimento.

Walmor Maccarini, jornalista

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res. Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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