T odas as formas de corrupção que envolvem bens materiais têm mão-dupla, ou múltiplas mãos, porque elas não se concretizam sem as figuras do corrupto e do corruptor. No caso de vereadores de Londrina - que não se esgota como tema por encerrar ingredientes que têm a ver com a moralidade pública e interessam à sociedade - a afirmação de que um só deles não pode tomar decisões significa que há conivência de outros mais. O que é verdadeiro, sabendo-se que num colegiado de 18 parlamentares serão necessários os votos de metade e mais um para aprovar um projeto de lei, seja ele revestido de honestidade e de interesse público ou viciado.
Quando, como agora ocorre, os próprios pares admitem a impossibilidade de um vereador decidir sozinho, mesmo que seja o presidente da Casa, sugerem que há mais culpados se a aprovação é dolosa e outros mais o saibam.. Por mais explicações que se façam, elas esbarram nessa matemática simples da decisão pela maioria. Que pode agir inocentemente, ao aprovar uma proposição escusa, ou estar engajada na divisão de propinas nos casos de concussão. Esta verdade não salva as figuras mais expoentes no presidente episódio, mas aponta para muitas direções-alvo. Sabe-se, da história da Câmara Municipal de Londrina, que teve eminentes e honrados vereadores, mas outros não passaram pela peneira fina da probidade e foram notícia nos veículos de comunicação. A crônica escandalosa de políticos é farta em municiar o noticiário, e o grave é que eles não se extinguem, mas multiplicam-se. Esta não é uma avaliação aleatória. Foi o médico e cientista italiano Césare Lombroso quem levantou a discussão sobre o homem delinqüente, ou o criminoso nato, que é distinguido, segundo sua teoria, por determinadas características corporais e sinais psíquicos de ausência de sensibilidade moral.
Jânio Quadros, que era um homem público excêntrico, porém honesto, costumava falar em sua exótica linguagem que sabia distinguir um político desonesto e um gay ‘‘pelos seus ademanes’’, entendendo-se aí os modos e trejeitos. Buscando na fonte lombrosiana de cem anos atrás - que também foi combatida mas influiu intensamente no Direito Penal em todo o mundo - pode-se acreditar que as aparências não enganam.
E enquanto se faz essas elocubrações e a Câmara de Vereadores - seguindo na causal das investigações do Ministério Público, vê-se obrigada a ‘investigar muito do que já sabia - é relançado em Londrina o movimento ‘‘Cana Neles’’, capitaneado por associações profissionais e pela sociedade mais politizada e corajosa, visando a instauração da moralidade pública pela força do brado popular. Boa providência. Mas que não tenha o mesmo saldo do movimento ‘‘Pés Vermelhos, mãos limpas’’, de pouca consistência e não totalmente despojado de intersses políticos.

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