Jamais gostei dos pensamentos imediatos. Da análise dos fatos isolados. Das idéias retilíneas. Separar apenas um fato e dele tirar mil e uma conclusões é temeroso. Geralmente, neste momento, a paixão nos toma e dizemos grandiosas besteiras. Para uma boa análise há de se tomar sempre o processo de causa e efeito. Nada neste mundo ocorre apenas por ocorrer. Caso eu fosse um crente nos atributos sobrenaturais do céu, acreditaria que Deus é a causa primária de todas as coisas e que, portanto, tudo seria determinado pelo seu sopro divino. Até mesmo as desgraças e desastres. Mas sou um devoto incorrigível da razão e acredito que as probabilidades de certos eventos acontecerem é decorrente de uma sucessão de fatos outros.
Vejo hoje que a Polícia Técnica conseguiu determinar de qual arma de fogo foi disparado o projétil que atingiu e matou a advogada Alexandra Greice Blanco Disseró. Ela foi morta há uma semana durante um assalto num bar em Londrina. No dia anterior, 3 de fevereiro, Alexandra havia completado 28 anos e resolvera comemorar seu aniversário, naquele lugar.
Não conheci a jovem advogada Alexandra. Talvez nunca viesse a conhecê-la. Vejo sua foto no jornal e ali o brilho dos olhos de quem tem apenas 28 anos, inteligência, sucesso, e aquele sorriso que transformam os jovens no que eles são, um potencial em tudo, uma certeza de poder ir sempre além.
Na minha incredulidade, duvido que as pessoas ainda cultivem este hábito terrível de morrer. Mas tudo parece ter tramado contra a vida de Alexandra. Ela poderia ter nascido no dia 2 e não no dia 3 e comemorado o aniversário em outro lugar. O soldado que estava passando pelo local e abriu fogo contra os assaltantes poderia ter tido uma dor de barriga, por exemplo, e se atrasado um pouco. A advogada poderia ter sentado em outra cadeira. A trajetória da bala poderia ser desviada por uma brisa terral que teimou em não soprar naquele dia. São tantos os poderia. Até os assaltantes poderiam ter nascido melhor, estudado, estarem trabalhando. O juiz poderia não ter dado indulto de Natal para um deles. A guarda penitenciária poderia ser mais eficiente e não ter deixado o outro fugir.
Alexandra, sei que tu foste uma pessoa boa. Hoje, outros podem ver e viver em virtude do teu nobre gesto de ter doado em vida teus órgãos. Tua família cumpriu teu desejo. Sei que daí onde tu estás, tua boa alma tem compaixão do assaltante que disparou contra ti a arma. Quantas vezes tu varaste a madrugada para estudar o nosso decrépito Código Penal e descobrir formas para defender ou acusar pessoas iguais a ele? Quantas noites, tu, Alexandra, perdeste o sono por saber este mundo injusto?
A propósito, tu deves ter encontrado por aí a Iracema Henrique. Ela era pobre, doméstica, tinha 36 anos e morreu naquela mesma quinta-feira em que tu comemoravas o teu aniversário. Iracema foi encontrada morta no apartamento de seus patrões, aqui em Londrina. Apartamento de luxo, de gente rica. Tu que estudaste Direito sabes que a Justiça brasileira não morre de amores pelos pobres. O inquérito policial, como vários outros que reúne ricos e pobres em Londrina e que apura a morte da Iracema, está envolto numa nuvem de fumaça. Ela provavelmente tenha sido estrangulada, mas nem isso a Polícia sabe informar direito. Sei que a tua boa alma não tolera estas coisas e por isso peço que tu intercedas junto à justiça do céu para que a morte de Iracema seja elucidada e não caia no esquecimento. Sei que tu conseguirás. Porém, antes um aviso, teu trabalho será gratuito, pois a família de Iracema não tem meios, mas não deixará, com certeza, de incluir-te em suas orações.
- JOSÉ FERNANDO DA SILVA é jornalista da Folha em Londrina

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