No dia 29 de janeiro deste ano, aquele que foi amo e senhor do Chile durante 17 anos, e cuja sombra continuou pairando depois que entregou o poder, passou a ser, por obra e graça de uma resolução judicial, um réu sobre cuja cabeça pendem graves acusações criminais, que tingiram nossa história recente com o sangue de dezenas de compatriotas.
Resultaram proféticas as palavras que o general Joaquín Lagos Osorio lançou em pleno rosto de Pinochet, quando, num dia de outubro de 1973, reclamou veementemente contra os crimes brutais que uma comitiva de militares procedente de Santiago havia cometido em sua cidade, Antofagasta: ‘‘Algum dia deveremos responder perante a Justiça por estes fatos horrorosos’’, disse Osorio. Foram necessários 27 anos para que essas palavras se transformassem em realidade.
Sem dúvida, haverá inúmeras explicações, análises e teorias para tentar entender o processo que o Chile vive com relação ao seu ex-ditador e que, por razões que também custa a entender, despertou tanta atenção mundial. Ditadores, tiranos e todo tipo de temíveis e tristemente célebres personagens permeiam a história da humanidade, competindo por um lugar no obscuro ranking da obscuridade. Pinochet nem mesmo tem o privilégio de ter sido o mais brutal de todos, mas, por algum motivo, conseguiu impor-se no cenário mundial de tal maneira que já não podemos reclamar como patrimônio exclusivo do Chile.
Embora já não seja propriedade apenas do Chile, temos o direito preferencial de apresentarmos as acusações contra ele e sua tragicamente célebre história, cuja última fase começou no mês de outubro de 1998 com sua prisão em Londres. E é disso que se trata. O que está ocorrendo com o já velho ex-ditador é que estamos tentando assumir sua pesada herança de crimes e arbitrariedades. Não tem sido fácil. Por muitos anos e por diversos motivos, o que nós chilenos fizemos foi precisamente o contrário: olhar para o lado, enganarmo-nos a nós mesmos, criar falsos climas de normalidade ou reconciliação forçada, enquanto nos equilibrávamos sobre um tapete que tentava esconder centenas de cadáveres que reclamavam para voltar aos seus entes queridos.
Entretanto, a força dos fatos impôs-se apesar das mais variadas formas de esquecimento, algumas sutis outras brutais, que tentaram aplicar. Uma força que foi ganhando cada vez mais força e que terminou por prevalecer de maneira inquestionável, de modo que as próprias Forças Armadas finalmente tiveram de aceitar o que por tantos anos negaram.
Nesse processo, é preciso considerar milhares de iniciativas que contribuíram para que atualmente o ex-ditador se veja obrigado a responder perante a Justiça, como aquela radicalmente dramática assumida por Sebastián Acevedo, que se auto-imolou em protesto pela prisão de sua filha em plena ditadura, ou das centenas de anônimas e humildes ações de resistência que a imaginação de um povo pode criar, passando pelas infinitas demonstrações de solidariedade internacional que tão generosamente recebemos.
Contudo, há um elemento que foi crucial em todo este processo, sem o qual não teria sido possível alcançar os graus de verdade e justiça, que em matéria de violações dos direitos humanos, conseguiu-se no Chile, incluindo o processo de Pinochet. Existe uma força que inspirou e impulsionou todo este processo que, nascida daqueles que parecem ser os mais frágeis entre os frágeis, tornou-se irredutível. Refiro-me à inquebrantável lealdade enraizada nesse profundo amor demonstrado por tantas mães, mulheres e filhas com seus seres queridos violentamente arrebatados de seus lares por aquela brutal máquina de repressão, criada ao amparo do ex-ditador.
Em definitivo, são elas, que com uma coragem a toda prova, foram progressivamente instalando na consciência moral de nossa sociedade a necessidade de exigir a verdade e a justiça para seus seres queridos desaparecidos da face da terra, sem outra força que não a que emanava de suas frágeis existências. É graças a elas que o Chile está recobrando sua dignidade como nação e são, sem dúvida alguma, o principal patrimônio moral que orgulhosamente podemos exibir ao resto da humanidade.
Quando a esperança começa a florescer novamente, e um punhado de mulheres demonstrou ao mundo que é possível fazer justiça, apesar das condições desfavoráveis em que tiveram de fazer com que ouvissem suas vozes, faz-se necessário testemunhar a imensa gratidão que a humanidade tem para com elas e seu inquebrantável testemunho de amor e lealdade aos seus entes queridos.
- HÉCTOR SALAZAR ARDILES é advogado de direitos humanos e membro da mesa de diálogo cívico-militar que esteve em sessão de agosto de 1999 até junho de 2000 (IPS)

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