As mulheres de Veja - Maria Lucia Victor Barbosa
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de dezembro de 1997
Maria Lucia Victor Barbosa 
Na capa da Veja de 24 de dezembro, a princesa Diana sorri na fotografia em branco e preto, propositadamente fantasmagórica. A cor só aparece no título em azul, As Mulheres do Ano, realçado sobre o alvo e nobre vestido. Mas quem são essas mulheres, e o que fizeram para merecer tal destaque?
Bem, as eleitas da Veja foram: a princesa Diana, Marta Suplicy, Thereza Collor, Madeleine Albright, Vera Fischer, Carla Perez, Marluce Dias da Silva e Débora Rodrigues. Como se nota, mulheres tão diferentes entre si que fica difícil entender quais os critérios utilizados pela Veja para homenageá-las. Ao que parece, com exceção de Madeleine e de Marluce, que se destacam por competência profissional, sendo que a primeira se afirma numa esfera incomparavelmente mais vasta de desempenho e capacidade, as demais parecem ter sido escolhidas a partir de algum regulamento de concurso de beleza, que conta mais com o aspecto físico. São cinderelas fabricadas pela mídia, que escolhe certas pessoas e as transforma em ídolos artificiais para satisfazer as necessidades de sonho, intriga e escândalo de um público que se contenta com a mediocridade enfeitada.
Evidentemente Madeleine Albrigth não é nenhuma cinderela. Primeira mulher no comando da política externa dos Estados Unidos, não chegou ao segundo posto do governo americano por ser uma beldade ou por posar na Playboy, mas por sua inteligência e garra. Filha de judeus, Madeleine provavelmente herdou do seu povo a tenacidade, o espírito de resistência diante do sofrimento, a necessidade de progredir e, desse modo se fez, sendo sua aparição na mídia decorrência do seu mérito pessoal. Entretanto, a Veja parece citá-la mais com o intuito de crítica do que de elogio. É descrita como baixinha, enfezada e muito cumpridora, que combina bem com a imagem da única superpotência do planeta que viu a aura de arrogância imperial inevitavelmente aumentada pela implosão de sua rival. Expondo a conhecida dor-de-cotovelo genuinamente latino-americana diante dos Estados Unidos, esta foi a linguagem que a Veja utilizou para passar a imagem de antipática e dura de uma mulher notável, que sendo também mãe e avó está demonstrando aos 60 anos sua capacidade de comando à frente da política externa de uma país que costuma dar oportunidade de ascensão a quem tem mérito, seja esse alguém homem ou mulher.
Para não ficar só na lista das cinderelas, e dizer que, yes, nós também temos representantes no sexo feminino com cérebro, aparece entre as mulheres do ano a superintendente da Rede Globo, Marluce Dias da Silva, a mulher mais bem paga do Brasil com o salário de 2 milhões de reais por ano. Tudo indica que Marluce mereceu o cargo, e tomara que ela consiga melhorar a criação e a programação da Globo que não está lá essas coisas, apesar da rede manter 63% da audiência nacional. Sem ser nenhuma Albright, Marluce sem dúvida mereceu o título de mulher do ano. Afinal, ela é uma raridade num país que não costuma premiar por mérito nem homens nem mulheres.
Quanto a Diana, que comoveu a todos com sua morte trágica e prematura, teria se convertido na mulher mais fotografada do mundo se não tivesse se casado com o príncipe Charles? Ela foi a típica cinderela, apesar de não ter sido antes propriamente uma gata borralheira. Em todo o caso, foi produto da mídia, que transformou seu jeito desengonçado em elegância, seu olhar enfastiado em glamour e seu marketing pessoal entre os desvalidos do mundo em ação benemérita. Diana foi para o grande público muito mais o símbolo e o sonho. Uma princesa virtual que escondia o ser humano concreto com suas falhas e virtudes, e apenas isto.
Marta Suplicy, a deputada que defende bandeiras como direito ao aborto e casamento civil entre homossexuais, é bonita, rica e soube explorar temas polêmicos com o seu oportunismo característico dos políticos em geral. Como seu marido, o senador Suplicy, parece estar no PT porque é chique ser de esquerda, e como pretende ser candidata ao governo de São Paulo, tinha de ser mulher do ano de Veja.
Thereza fez sucesso porque era Collor, senão passaria despercebida. Sua beleza brejeira ajuda a ocultar um pouco seu mau gosto expresso em roupas e jóias. É mulher do ano porque namora o filho do presidente da República.
Vera Fischer continua uma mulher bonita e uma atriz medíocre. Bebe, se droga, faz escândalos e por isso se converte em modelo da vida nacional. Com certeza é mulher do ano pelos exemplos edificantes que dá.
Carla Perez se notabilizou pelo estilo que se resume em sacudir o traseiro. Ficou rica e famosa por causa de uma garrafa, e é mulher do ano por pertencer à safra dos tiriricas.
Débora Rodrigues, a sem-terra que ao que consta nunca foi sem-terra, usou o nome de um movimento que jamais representou para exibir-se na Playboy, Ficou rica e fez plástica e tem programa na TV. Faz parte da era Ratinho.
Esperemos que 1998 consagre outras personalidades.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga.


