As mulheres das ruínas
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 05 de outubro de 2001
Maria Lucia Victor Barbosa 
O tema relativo ao ataque terrorista aos símbolos americanos, perpetrado com incomum bestialidade em 11 de setembro, tem coberto páginas e páginas de jornais e vai continuar cobrindo, enquanto manifestações de ''Osama nas alturas'' enchem de mais samba e alegria a vida acadêmica no Rio de Janeiro, ''País do Carnaval''.
Raramente muda a tônica de que os Estados Unidos são culpados pelo que lhes aconteceu, e a explosão dos aviões nas torres do World Trade Center, repetida em vídeos, é comemoradas na terra de Macunaíma aos gritos de olé. A ladainha de pensamentos e atitudes lineares, construída sobre o vácuo das falsas argumentações, já vai entediando quem tem um mínimo de discernimento e sensibilidade, mas quantos os tem?
Curiosamente, muitos dos que clamam contra a política externa dos Estados Unidos já moraram lá em busca de melhoria de padrão de vida, ou de maior aquisição de conhecimento. Provavelmente, também, nossos adeptos de Bin Laden tenham em terras norte-americanas parentes e amigos que foram desfrutar das oportunidades de uma sociedade desenvolvida e democrática.
Mas mesmo despejando seu ódio sobre o ''Grande Satã'', os oportunistas, os demagogos, os cultivadores do caos e seu séquito de inocentes úteis, devem estar frustrados porque até agora os americanos se abstiveram de jogar um bomba atômica sobre o Afeganistão, e vêm desenvolvendo uma inteligente estratégia diplomática na qual se forma a rede mundial dos aliados contra o terrorismo.
O mais provável, contudo, é que daqui a pouco se diga, como alguns dizem com respeito ao Holocausto, que a tragédia não existiu e que tudo não passou de mais um filme americano. Mesmo porque, o que acontece longe parece não nos dizer respeito. A coisa não foi conosco, o que nos dá direito de comentários que vão da ingenuidade dos desinformados até a pura e simples necessidade de distorcer a realidade à luz dos nossos conhecidos antivalores. Também, pudera, ''não existe pecado do lado de baixo do Equador''.
De qualquer modo, sobre a vida no Afeganistão dominado pela milícia taleban, parece que a intelligentzia brasileira não tem grandes noções. Sobre aquele lugar de ruínas, areia, barbudos e mulheres cobertas da cabeça aos pés, não li nada ainda sobre a opinião dos defensores dos direitos humanos, das feministas, dos adversários dos valores contidos na democracia e na liberdade, das variadas ONGs, dos românticos cultores do totalitarismo. Mas como ficam, por exemplo, para os protetores dos fracos e oprimidos, a realidade das mulheres das ruínas do Afeganistão?
Pode ser até que essas mulheres, que não conhecem o que ocorre no mundo, pois no seu país a televisão e a Internet são proibidas, achem natural que não possam estudar, nem exercer nenhuma profissão, nem se pintar ou se divertir. Quem sabe estão acostumadas a verem outras mulheres serem apedrejadas por adultério. É possível também que não possam ir ao estádio de futebol para ver os opositores do Taleban serem enforcados ou mortos a tiros.
Não tem importância, pois em compensação elas podem entrar no macabro estádio para serem executadas. Já aos homens é dado o privilégio: eles podem assistir ao esporte predileto no estádio de Cabul, ou seja, aos castigos mais variados, programados depois das preces de sexta-feira. Eles não têm mesmo a opção de discotecas, cinemas, bares, enfim, essas pragas ocidentais pecaminosas que foram terminantemente proibidas depois que os radicais talebans impuseram sua versão da sharia (lei muçulmana).
Imaginariamente me visto com o burka. Estou coberta da cabeça aos pés e vejo o mundo pela estreita abertura quadriculada sobre meus olhos. Sufoco. Sinto calor. Horrorizada diante do radicalismo medieval dos talebans, lembro-me da frase do personagem Obi-Wan Kenobi para Luke Skywalker em Guerra das Estrelas: ''O sofrimento de um homem é o sofrimento de todos. A injustiça independe da distância. Quando não é contido a tempo, o mal se espalha para atingir todos os homens, tanto os que o combateram como os que o ignoraram.''
- MARIA LUCIA VICTOR Barbosa é escritora, socióloga e professora universitária
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