As muitas práticas de jogo no Brasil
A jogatina deve ser combatida por todas as formas, não só porque é contravenção penal mas porque alimenta vícios e leva à infelicidade de muitos lares. A Polícia deve agir, como fez agora ao fechar uma banca de jogo do bicho em Londrina e quando detona antros de máquinas caça-níquel, bingos e outros pontos de jogos de azar. Mas é preciso que a opinião pública atente que é o Governo o maior banqueiro do jogo, com suas inumeráveis lotos, e também para a permissão aos sorteios sistemáticos por via da televisão e de tantas outras formas, porque é sempre o povo que acaba pagando a conta.
Não que a fiscalização sobre as contravenções deve cessar - embora não se conheça poder algum que consiga impedir, por exemplo, o folclórico jogo do bicho, que existe em muitos países - mas é contraditório assistir a essas ofensivas quando o Brasil inteiro é uma grande casa de apostas. Se os fins buscam justificar os meios - porque as lotos anunciam no verso dos cartões que a destinação de parte da receita é para causas esportivas e assistenciais - sabe-se que fortunas são retiradas diariamente do meio circulante para servir a esse autêntico cassino. Os sorteios são realizados mas nunca se conhece o nome do ganhador, propiciando o direito dos cidadãos (que formam o bolo milionário) a uma maior transparência nesse sentido.
Joga-se a semana inteira, e agora acaba de ocorrer uma alta em certas modalidades de aposta, significando aumento da receita. Se jogar é uma atitude espontânea, também o é nos jogos não oficiais. Sob o enfoque legal, uma mesma prática de aposta tem interpretações diferentes. As autoridades, ao realizarem uma operação, referem-se ao jogo ilegal, a definir que existe o jogo legal, e este é o das lotos - que não disfarçam um modelo de contravenção legalizada.
Mas a mira da lei deveria ser não para o que é estabelecido como legal e ilegal e sim para a nocividade de todas as formas de jogo de azar. Porque viciados não são apenas os do carteado mas também os obcecados por loterias, havendo entre eles os que sacrificam o leite das crianças para gastar nas bancas do povo. É sob esses aspectos que toda prática de jogo é prejudicial, sabendo-se que o grande ganhador não é o que aposta mas o que banca.
Os brasileiros se queixam, e com razão, do quanto colocam em mãos do poder público, em forma de impostos, mas não atentam para o quanto deixam nos guichês das loterias. Pode parecer utopia imaginar-se o fim das lotos, mas a inexistência delas traria sem dúvida mais benefício à economia popular do que o anunciado no verso dos boletos.





