As muitas outras medalhas por conquistar
Termina a Olimpíada e o Brasil não traz grande número de medalhas, mas a grandiosidade de um povo não se mede por vitórias olímpicas. Esta avaliação não é um artifício de consolo e não seria diferente se todos os atletas brasileiros retornassem da China campeões. Isto não invalida o incentivo ao esporte, que é uma prática salutar, mas uma grande nação se constrói pela soma de muitos ingredientes e não apenas com conquistas isoladas nas quadras esportivas. Até porque os jogos oficiais, envolvendo nações ou disputas internas, converteram-se em rendoso mercantilismo e perderam o brilho
que deveria marcar todas as formas de jogos.
O que deveria ser uma festa para jogadores e platéias, como as sadias ''peladas'' reunindo amigos, transformou-se hoje, no Brasil e no mundo, em batalhas de torcidas, algumas violentas, e em supervalorização de atletas no confronto com atividades imprescindíveis mas de tão baixa remuneração. Também não é sediar uma Olimpíada - como quer agora o Governo brasileiro - que irá emancipar um povo dominado pela violência e por carências sociais. Primeiro é preciso arrumar a casa (isto não significando construir formidáveis estádios, e nem há dinheiro para isso) para depois receber visitas.
É cansativo o refrão - mas sempre necessário repeti-lo- de que no caso do Brasil há outras importantes medalhas por conquistar, como a emancipação dos cidadãos por moradia decente, atendimentos de saúde para todo o povo, segurança, elevação do nível educacional e espiritual, dignidade nas administrações públicas, preservação ambiental e mais solidariedade. Com toda a certeza estes são bens mais relevantes, que depois de conquistados - ou sendo conquistados paralelamente - aí sim podem permitir o luxo de bancar grandes eventos e se investir na busca de medalhas olímpicas e todos os demais títulos de superioridade esportiva. De forma que seja tão bom vencer quanto apenas participar. Mas a obsessão por ganhar ou vingar derrotas anteriores já não dá lugar à arte e à beleza da participação - com o máximo empenho, sim - mas sem mortificação se a vitória não for alcançada.
Esforçar-se por obter os melhores resultados em competições esportivas é um saudável ideal, mas é preciso que a consciência coletiva não se deixe dominar pelo entusiasmo de vitórias temporárias nesses campos e nem perder a auto-estima patriótica quando o triunfo não sorrir. Olhando ao redor, os brasileiros verão que adversários como os atrás citados são mais desafiadores, e estes sim será preciso derrotar.





