Mário Henrique Simonsen foi um homem de presenças múltiplas e importantes pelos diversos papéis que desempenhou na cena brasileira e na paisagem carioca.
O Brasil o conheceu como economista notável, lúcido e influente. A profissão tinha nele um marco de referência de qualidade. Não tendo estudado no exterior, nunca deixou de acompanhar de perto tudo que lhe interessava do notável desenvolvimento teórico e empírico da economia nos últimos quarenta anos. A combinação de uma rapidez de raciocínio estonteante, facilidade espantosa para os argumentos matemáticos mais complexos, lado a lado a uma disposição fantástica para o trabalho, lhe permitia estar sempre pronto para digerir e transmitir, com melhorias e simplificações os intricados resultados teóricos mais recentes.
Minhas lembranças de ex-aluno e de ex-professor da Escola de Pós-Graduação em Economia da Fundação Getúlio Vargas, que ele fundou, dirigiu e que marcou de forma indelével com seu talento, sempre me deixam viva na memória a imagem de que nunca havia nenhum problema ou crise na Escola de meu tempo, cuja solução não envolvesse, de alguma forma, um pleito dos estudantes para que Simonsen desse ainda mais um curso. O resultado é que as disciplinas de formação fundamental, como Matemática, Microeconomia, Macroeconomia, Finanças Públicas, Economia Internacional, Crescimento Econômico, Teoria Monetária, todas elas foram em algum ponto da história da Escola ensinadas por Mário Henrique, que, ao preparar-se para qualquer delas, deixou livros didáticos ou partes de livros que influenciaram a formação do currículo básico das principais escolas de economistas em todo o Brasil.
Sua invulgar capacidade didática, a clareza de exposição e a paciência infindável com seus alunos transformava todos em discípulos, portadores das marcas profundas do mestre. Sua impaciência com a estupidez disfarçada de preconceito ideológico e com a falta de seriedade disfarçada de dúvida metódica marcavam o caminho entre a disciplina requerida pelo estudo sério e a liberdade para pensar o novo. Seus filhos e netos intelectuais fizeram e fazem sucesso nos cursos de pós-graduação de maior prestígio no planeta e ajudaram e ajudam a melhorar a qualidade da política econômica no Brasil.
Sua capacidade de trabalho e facilidade para apreensão lhe permitiram adquirir conhecimento ao nível de especialista em várias áreas de conhecimento, especialmente se dissessem respeito às suas duas fontes permanentes de prazer: a matemática e a música. Era capaz de discutir com especialistas do Instituto de Matemática Pura e Aplicada, para onde foi conduzido por seus amigos de sempre, Maurício Mattos Peixoto e Lindolpho de Carvalho Dias, e de dedicar-se profissionalmente à critica musical assinando uma coluna especializada na revista Veja.
Os que não têm a felicidade de morar no Rio não avaliam a contribuição que teve para o soerguimento econômico e cultural da cidade. Carioca apaixonado, foi fundamental para o fortalecimento de instituições como a Orquestra Sinfônica e o Teatro Municipal. Um entusiasta do renascimento da cidade e do Estado do Rio de Janeiro, nos últimos anos emprestou seu valioso tempo e seu prestígio para a causa da recuperação do Rio.
Mas é na análise da política econômica que a presença de Mário Henrique Simonsen fará muita falta. Cada ministro da Fazenda, presidente ou diretor de Banco Central dos últimos 30 anos sabe o valor de seu conselho desinteressado e independente acerca dos rumos da política econômica, mas principalmente conheceu a força de sua opinião para a formação de expectativas favoráveis sobre o futuro do país. Mário Henrique conseguiu o feito de ser sempre um apoio importante para as ações razoáveis de política econômica independentemente do que pensasse do próprio governo. Enquanto visse nas ações de política uma chance de melhoria para o País, emprestava-lhes seu apoio e era incapaz de vocalizar uma crítica que pudesse pôr em risco a credibilidade de uma política que pudesse disso depender para obter resultados, ainda que fosse cético quanto à durabilidade das mesmas.
Sua relação com a imprensa foi sempre de grande generosidade, com tempo dedicado a explicações e esclarecimentos, notadamente quando enxergava em algum mal-entendido de um repórter um dano maior para o comportamento dos mercados ou para a credibilidade da política econômica. Os jornalistas tinham sempre a certeza que, qualquer que fosse a sua opinião acerca de um fato novo ou de uma medida do governo, ela espelhava a sua convicção do que julgava melhor para o País, jamais conveniências políticas ou muito menos de negócios.
Professor, intelectual, economista, homem público, músico e crítico musical, banqueiro e consultor de empresas bem sucedido, Mário Henrique Simonsen fará falta também como interlocutor entre os diversos mundos em que viveu e ponte entre as diversas culturas onde vicejou com sua ironia, capacidade de criticar sem ferir e sua forma especial de ser generoso. Com tantas e bem sucedidas inserções na vida de seu País e de seu tempo, são muitas as faltas que fará a todos nós.

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