Ei-la que surge dominante, forte, incontestavelmente presente no dia-a-dia de todos. Direta ou indiretamente recebemos os reflexos desta inovadora e avançada forma de olhar o mundo. Refiro-me a era da informática. Induvidosamente o movimento mais sólido, avassalador e organizado, por essência, que jamais atingiu a tantos em tão pouco tempo.
Mudar quer dizer dispor de outro modo, substituir, transferir, sofrer alteração, modificar, que além de outros sinônimos admitidos pelo Aurélio pode até ser apenas ‘‘fazer apresentar-se com outro aspecto’’.
É muito interessante constatar o quanto, de fato, o ser humano é resistente às mudanças. A psicologia explica. A física também. Poder-se-ia comparar ao princípio da inércia; aquele que afirma que a energia tende a persistir no movimento em que se encontra. Explica-se, contudo, os anos passam, as coisas efetivamente mudam e ao mesmo tempo não.
Analisando a questão um pouco mais detidamente, na medida em que mudar pode significar tão-somente ‘‘fazer apresentar-se com outro aspecto’’, a verdade é que tanto resistimos que afinal não mudamos. Fazemos, talvez e eventualmente, parecer que a mesma coisa é outra coisa.
Essa é a história da humanidade, do Brasil, do Estado, do município, do bairro e até mesmo daquela rua onde você mora há muitos anos. Como é interessante perceber que, diária e incansavelmente, reivindicamos, em todas as esferas e de todas as formas, mudanças. O povo quer mudar o País, o sistema, o governo e tudo e qualquer coisa, pois é necessário mudar.
O professor quer mudar o aluno que não se cansa de tentar mudar o professor. O pai espera pelas mudanças do filho que anseia pela mudança do pai... Pergunto-me se queremos realmente tantas mudanças ou se pretendemos, tão só, fazer a mesma coisa apresentar-se com outro aspecto. Passamos alguns e estamos outros a passar pelo tão polêmico período eleitoral. É quase inacreditável o quanto este ‘‘período’’ influencia a vida das pessoas. Tem-se até a nítida impressão de que alguma coisa pode mudar.
Na era da informática, as eleições chegaram com trajes novos, requintados, sofisticados mesmo. Trocaram-se as pobres e já inúteis urnas de lona e cédulas de papel impresso por pequenos ‘‘micro-maxi’’ verdadeiros computadores chamados urnas eletrônicas. Criou-se um sistema de tal forma complexo que, confesso, não sou capaz de compreender com exatidão tal qual a enorme maioria da população que, a bem da verdade, não o compreende nem mesmo sem exatidão.
Na moderna urna, os dados dos candidatos são armazenados e até as suas fotos podem ser vistas, obviamente desde que o eleitor se permita aguardar com paciência os dois ou três segundos necessários para que isto aconteça, antes de ansiosamente apertar a tecla confirma. Observando-se que as máquinas 2000 são instantâneas e que, neste pleito, dada a expectativa da novidade, houve muita confusão quanto ao momento oportuno de digitar o número do vereador e do prefeito.
Um sistema moderno, talvez o melhor do mundo atualmente. Inteligente, complexo, seguro, adequado à era da informática, da globalização, e de todas as coisas que se ouve falar por aí, às vezes até nos programas de televisão. Pelo que se viu, pode ser que as pessoas que vêm dedicando cada minuto de suas vidas durante anos para elaborar um sistema, do ponto de vista técnico tão magnífico, tenham perdido literalmente esse precioso tempo.
Ao que parece, pretendemos, alguns de nós é claro, e infelizmente refiro-me a uma camada pretensamente pensante da sociedade, que as mudanças ocorram de forma tal que possamos continuar a manipulá-las. É a verdade, não há como negar, alguns defendem mudanças exatamente na medida de seus interesses e como estes interesses não são idênticos para todos, jamais se alcança qualquer objetivo real, prático ou verdadeiro.
Somos resistentes às mudanças. Os especialistas que tanto se dedicaram ao projeto ‘‘voto eletrônico’’ obtiveram nada como reconhecimento. Os profissionais e pessoas comuns convocadas não voluntariamente pela Justiça Eleitoral tiveram em troca de seus prestimosos serviços, críticas, desconfianças, acusações e desmerecimentos. Passamos todos a ser culpados pela derrota dos vencidos e como os vencedores não discutem, nada é o que deles também recebemos.
Há exceções, por óbvio. Quero crer que a grande maioria se traduz em exceção (sinal de que ainda resta aquela tal esperança), mas é sofrível a constatação de que a regra permanece: somos resistentes às mudanças; e pelo que se teve o pesar de assistir, a resistência tem-se apresentado em forma de violência que seja física, verbal ou moral, continua sendo o argumento dos que não possuem argumentos.
Apesar dos pesares estamos na era da informática. As mudanças já aconteceram. As eleições eletrônicas, postos os resultados na balança, apontam para um absoluto sucesso. Para não dizer que ninguém lembrou, parabéns a todos nós que de qualquer forma contribuímos para o resultado positivo desta nova experiência; e àqueles que resistem em admitir como único sinônimo de mudança ‘‘fazer apresentar-se com outro aspecto’’ um conselho: dicionário e um pouco de bom senso podem ajudar a perceber que mudança é também e mais que tudo, transformação. O que se transforma permanece, não se cria nem se perde.
- MARISA DE FREITAS é juíza de Direito da Comarca de Mandaguaçu