J. Roberto Whitaker Penteado
Meu querido amigo professor Paulo Rónai, uma das pessoas mais bonitas que conheci, dedicou tempo, no finzinho da vida, para compilar um Dicionário de Citações: o único decente, feito no Brasil, que a Nova Fronteira insiste em não reeditar. Na primeira edição da obra, o professor mandou que pusessem na capa uma frase de Emerson: ‘‘Detesto citações’’. Bem a cara dele. Nas edições subsequentes, substituíram a vontade do autor por uma frase mais bem-comportada.
Contrariamente a Emerson, contudo, eu adoro citações. Há três aspectos fascinantes numa boa frase citada fora de contexto: imaginar em que circunstâncias o autor a escreveu (ou disse) tentar descobrir quem foi o responsável por retirar de um texto aquela frasezinha mágica - que os franceses chamam de boutade - e, finalmente, deixar voar a criatividade e remoer os vários sentidos possíveis daquele pronunciamento. Às vezes, há um outro pequeno descobrimento - que pode dar trabalho: descobrir quem é a pessoa que se cita.
Por exemplo, como muitas das nossas fontes são da língua inglesa, Samuel Johnson e Thomas Fuller são nomes que aparecem com frequência, embora não tenham grandes ligações com a nossa cultura. Johnson, inglês, foi um importante compilador e crítico do século 18, famoso, também, como grande papo. As tiradas penetrantes que fazia, sobre pessoas e costumes, já eram citadas por seus contemporâneos, nos salões. Fuller é mais antigo - do século 17 - e notabilizou-se como grande fofoqueiro, dedicando-se a escrever uma espécie de ‘‘quem é quem’’ dos anos 1660.
Tenho, em casa e no trabalho, muitos livros de citações. Além dos quatro benefícios descritos acima, há, para quem escreve por profissão, um quinto: o adorno ao próprio texto. Ninguém deixa de ficar impressionado por um artigo que começa com uma pomposa citação - por exemplo, ‘‘Platão é um chato’’ (dito por Nietzsche) - por mais medíocre que seja o conteúdo subsequente.
Quem terá sido, por exemplo, o Francesco Caracciolo que se celebrizou no mundo britânico por ter definido a Inglaterra como um país que tinha 60 religiões e apenas um molho? O livro de citações não me diz, mas a enciclopédia esclarece que foi um comandante de navio do século 18 e que seu nome não é com o mas com i: Caraccioli.
Já o James Thurber, que disse ‘‘É melhor conhecer algumas das perguntas do que todas as respostas’’, eu conheço bem. Costumava hospedar-se, em Nova York, no mesmo hotel que eu - o Algonquin - e era um cara supersimples, autor de fábulas e cartuns publicados no New Yorker. Morreu em 1961.
Próxima citação: ‘‘A mente humana trata uma nova idéia da mesma forma que o corpo lida com uma proteína estranha: rejeitando-a.’’ Seu autor é o biólogo Peter Brian Medawar. Vou à enciclopédia sem muita esperança, para ser surpreendido não apenas com o fato de ele estar lá, registrado, como por aprender que se trata de um inglês que nasceu no Brasil, em 1915, e morreu em 1987, ganhou um Prêmio Nobel em 1960, e é evidente que pertence ao clã brasileiro, de origem árabe, dos Medauar.
O livro que estou usando é ‘‘As 2.549 melhores coisas já ditas’’, de Robert Byrne - uma compilação de três best sellers. A próxima frase é do francês Jean Giraudoux: ‘‘Só os medíocres mostram sempre o seu melhor.’’ Giraudoux é quase contemporâneo, autor da peça ‘‘As Loucas de Chaillot’’. Mas é bom curtir a viagem ensejada pela frase solta: por que os medíocres mostram sempre o seu melhor? Porque não dá trabalho? Pelo melhor de um medíocre ser indistinguível do pior? Por ser difícil, para os gênios, apresentar-se ao mundo de forma agradável?
‘‘Exceto pelos 9 meses antes de vir ao mundo, nenhum ser humano administra suas coisas tão bem quanto uma árvore.’’ Essa é de Bernard Shaw e carece de que se tenha uma idéia do famoso mau humor do dramaturgo inglês para começar a entendê-la. Deixo ao leitor a reflexão, acrescentando, apenas, que eu não poderia concordar mais com o dito de Shaw.
A última frase dedico ao meu eterno guru, Bertrand Russell: ‘‘Patriotismo: disposição de matar e ser morto por razões triviais.’’ À primeira vista, um absurdo. Após reflexão, continua sendo um absurdo, porém praticado com constância ao longo dos séculos e dos milênios - e ainda em voga em todos os países do mundo - mesmo os que se consideram ‘‘adiantados’’.
- J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é publicitário e professor universitário no Rio de Janeiro

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