As medalhas por conquistar
Estimula nossa vaidade conquistar o máximo de medalhas nos Jogos Olímpicos, e isto nos fará crer que somos desenvolvidos. Seremos admirados por aqueles que também vêem nessas conquistas uma marca de supremacia, e assim imaginamos que a medida de nossa competência reside em atingir limites olímpicos, e que estes sãos os reais valores de um povo.
Sentimos orgulho ou vexame, perante as nações, fixados em ideais de competição, como se vivêssemos em constante olimpíada. Temos imaginado que o sentido da vida se estriba na disputa, que o melhor vence, e que é preciso ser melhor, e dessa concepção resulta que alguém é pior...
Bom se, embora uns mais hábeis em determinadas coisas, e outros menos, nos sentíssemos todos iguais, sem atribuir valores de superioridade ou de inferioridade.
A formidável festa de apresentação das Olimpíadas é sempre uma manifestação de criatividade, de poder, e também uma exaltação à paz e à convivência harmônica entre os povos. E há muita beleza nesses jogos, se visamos ressaltar a estética, a forma física e a habilidade. Porém as disputas nem sempre caracterizam confraternização e sim uma ferrenha competição, com muitas mágoas e frustrações. O sistema olímpico não propicia segundas chances, a não ser em outra Olimpíada, rivalidades antigas manifestam-se, e o confronto não é apenas entre atletas, mas também entre marcas e entre países em condições de sediar o grande evento olímpico e aqueles que nem sequer dispõem de recursos para enviar seus atletas.
As Olimpíadas acabam ressaltando graus de riqueza e de pobreza das nações. E aquelas que conquistam muitas medalhas, é porque já conquistaram todas as anteriores...
A grande olimpíada da vida deveria ser a não existência de olimpíadas para medir forças, com tantos desequilíbrios, e sim uma perene identificação de todas as gentes. Verdade que nações menos desenvolvidas também conquistam medalhas, não significando que um povo deixe de ser grande por não obter medalha nenhuma ou nem tiver representantes nessa competição. Porém, enquanto o número de atletas de um país, e das medalhas conquistadas, ainda for o grande sinalizador de supremacias de um povo sobre outro, então não terá baixado ali o espírito olímpico.
Tudo deveria ser uma grande festa de alegria entre as pessoas, igual ao sempre majestoso espetáculo de abertura, ao solene desfile dos atletas e à confraternização reinante entre eles, mas o momento olímpico revela-se apenas uma trégua entre nações que vivem em rivalidade e entre povos do mundo em disputas por territórios e por obtenção de riqueza e poder, sempre em detrimento de alguém, e sem complacências, onde o melhor tem que ser o vencedor, porque o mundo parece sentir necessidade de competição e de seus heróis.
Uma nação não será grandiosa apenas pelo número de vitórias obtidas em campos de disputa esportiva, nem por chegar entre os primeiros na corrida tecnológica, nem pela ascensão cultural e nem pelo predomínio econômico, mas será grande aquela que se superar pela solidariedade e pelo espírito da paz e da fraternidade; aquela que melhor terá sabido repartir a sua riqueza; a que terá varrido as misérias e as desigualdades sociais; que houver assumido a consciência de que as pessoas compõem uma grande família político/social/espiritual, com iguais direitos e obrigações; será grandiosa a nação que tenha aprendido a conviver em perfeita comunhão e harmonia com seu próprio povo e com os povos do mundo.
Se para nós, brasileiros, for tão importante satisfazer vaidades e mostrar que somos um povo competente e evoluído, temos que atentar para outras conquistas que tanta admiração causariam aos olhos do mundo, como evoluirmos do nosso estado de pobreza para o de plena riqueza, num país tão privilegiado pela natureza como o nosso; extrairmos do solo todos os alimentos de que precisamos, sem a vexatória posição de termos que importar muitos deles, quando poderíamos ser os grandes abastecedores do mundo; preservarmos nossas reservas florestais, como a Amazônia, antes que legiões estrangeiras o façam; eliminarmos a imagem de que não somos uma nação séria, o que infelizmente vigora, por força de nossas negligências e dos nossos governantes corruptos; eliminarmos nossa indolência e pensarmos mais a pátria, de uma forma universal, para não lembrá-la apenas nas Copas do Mundo e nos Jogos Olímpicos; extirparmos de nosso meio a violência, a fome e a miséria, não para que nos vejam os povos das outras nações, mas para que nós nos vejamos e tenhamos orgulho de nós mesmos.
Estas não são utopias mas metas atingíveis, como medalhas de ouro.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina





