Mágoas que vazam e extravagam pelos labirintos e corredores do Palácio Iguaçu. Todo final-começo de governo é assim mesmo, sempre há os preteridos, os esquecidos, os deixados de lado na distribuição de cargos. Uma choradeira danada. E no Planalto, nada diferente, o mesmo mar de lágrimas e ranger de dentes.
Neste ano, o número das lamúrias, bicos e beicinhos virados bateu o recorde. Fato facilmente explicável porque pela primeira vez em nossa história tivemos um governador e um presidente reeleitos. Antigamente, quando obrigatoriamente tínhamos um novo governante de quatro em quatro anos, os palacianos nomeados até se conformavam ao perder o cargo. Afinal, o programa de governo e os acordos dos novos governantes eram diferentes e com abrangências diversas. E o máximo que o sujeito que deixava o cargo poderia fazer era desparafusar a cadeira do seu sucessor.
No Paraná temos alguns descontentes com as nomeações para o secretariado efetuadas pelo governador Jaime Lerner (PFL). A começar pela vice-governadora Emília Belinati (PTB) - incluindo marido e filho, Antonio, sem partido, prefeito de Londrina e Antonio Carlos, deputado eleito pelo PSB. Os dois, o governador e a vice, nem se olham. E quando são obrigados a isso, é aquele show de sorrisinhos amarelos. Um desconforto brutal até para a platéia.
Caso o Sobrenatural de Almeida não resolva dar seus costumeiros passeios pelo Iguaçu, a aliança Lerner-Belinati estará definitivamente condenada às masmorras palacianas. E tudo caminha para isso. Depois da análise das novas composições de forças e possíveis alianças táticas feitas com lideranças que despontam no cenário paranaense, os palacianos se sentiram à vontade para criticar o posicionamento da vice-governadora. Eles sabem que a luta pelo governo em 2002 já começou e que existe tempo suficiente para se conseguir novos aliados no interior do Estado.
Uma lenda terrível sempre foi espalhada e semeada pelo vento em todas as esquinas do Paraná. Os fabulistas contam que o governador e sua equipe não sabem fazer política, são técnicos, burocratas que assistem às transformações do mundo pela janela de seus gabinetes. Estúpido engano, caso esta lenda fosse verdadeira, Lerner não teria sido reeleito, não comporia um governo que só conseguiu desagradar a família Belinati e o obscuro prefeito de Ponta Grossa, Jocelito Canto.
Os fiéis escudeiros do governador, Gerson Guelmann e Giovani Gionédis estão a postos e acompanham par e passo os novos arranjos para a estratégia de poder do PFL no Estado. O prefeito de Curitiba Cassio Taniguchi (PFL) alinhava sua candidatura ao governo do Paraná à moda nipônica e, sem alarde, alcança uma invejável popularidade. As ações de Taniguchi sempre foram muito diferentes do agora ministro do Esporte e Turismo, e também candidato ao governo paranaense, Rafael Greca (PFL). Espalhafatoso, Greca levou uma alegria nada comum para o sisudo governo tucano instalado em Brasília. Greca sabe roubar a cena. A imprensa nacional parece ter descoberto isso. Todo mundo estava entediado com aqueles políticos de Brasília com a cara de quem padece de uma eterna dor de dente. Os nossos colegas de imprensa do Distrito Federal nem sonham o que os espera. Com Greca no ministério não faltarão notícias, tiradas, citações dos mais antigos papiros egípcios, piadas bizantinas e, é claro, a alegria de um Baco inebriado com os odores do poder.
Mas, como diria o grande filósofo Jorge Ben Jor, canja de galinha, prudência e dinheiro no bolso, não fazem mal a ninguém. Seria de bom-tom para o PFL paranaense dar uma trégua para a vice-governadora e pensar que a lógica cartesiana jamais funcionou em política. O bom senso, artigo muito em falta no guarda-roupa de alguns políticos, aconselha aos homens não contrariar ou magoar as mulheres. Ser vítima de mágoa feminina é coisa para não se desejar nem para a sogra - Deus nos livre! - das duas é claro, da mágoa feminina e da sogra. E a coisa fica muito mais complicada quando esta mulher sabe fazer política e a boa política.
- JOSÉ FERNANDO DA SILVA é jornalista da Folha em Londrina.

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