Quem pensa que governo encerrou o ciclo de casuísmos político-eleitoreiros está muito enganado. Aprovada que foi a reelegibilidade do presidente da República, procura-se, agora, condições para que Fernando Henrique Cardoso, na hipótese de candidatar-se a mais um mandato em 1998, tenha chances quase totais de êxito nas urnas, contra quaisquer de seus previsíveis adversários.
Em princípio, evidentemente, é fundamental que a inflação continue sob controle nos próximos vinte meses, portanto, até as eleições de outubro de 98. Não será tarefa das mais fáceis mantê-la nos atuais níveis, tantos são os fatores que podem pressioná-la para cima. Um deles é o aumento da taxa de juros nos Estados Unidos.
Mas, em pontos críticos, como a perspectiva de não-crescimento do País nesses dois anos e, assim, a elevação dos índices de desemprego devido à adoção de medidas destinadas a conter o consumo e que envolvem a alta dos juros internos, os técnicos em casuísmos estão tranquilos. Ainda que o desemprego suba além das taxas atuais - em Brasília os desempregados estão quase na faixa de 16% da mão-de-obra - o fenômeno pode reduzir um pouco a popularidade presidencial, mas terá efeito irrelevante nas urnas. Motivo: tem-se como certo que se repetirá, no Brasil, o que aconteceu na Argentina, durante a reeleição de Menem. Ali, a crise de trabalho fez 17% de desempregados. Estes, como se previa, reagiram contra a candidatura Menem, mas os argentinos empregados garantiram sua reeleição. Explicou-se tal comportamento com o espírito de egoísmo que, nos momentos de crise, afasta os que estão bem da legião dos que sofrem.
Não há nenhum motivo para crer que esse triste fenômeno de desagregação da solidariedade social não se repita no Brasil. Tanto que se espera, por isso mesmo, que o candidato FHC comece a campanha eleitoral com apoio mínimo de 30% dos felizardos que trabalhem, algo em torno de 30 milhões de eleitores.
Para que tal circunstância dê resultados positivos é que o governo está disposto a aumentar os sacrifícios dos excluídos, através do controle rigoroso da inflação, gerador de mais desemprego. Mas também fará ajustes na legislação eleitoral, que o ajudem. Um deles será o fim do voto obrigatório, para reduzir o comparecimento dos dissidentes às urnas. Mas a grande fórmula a sair do laboratório de casuísmos será a extinção do pleito presidencial em dois turnos, sob o argumento de que eles implicam despesas inúteis e tomam o horário de lazer das emissoras de televisão. O governo espera faturar, com o patrocínio dessa tese, a simpatia da multidão de telespectadores educados, pelas próprias emissoras, no ódio à propaganda eleitoral.
A dois anos das eleições, pode-se achar que alguns desses tiros, destinados a eliminar as oposições a FHC, saiam pela culatra, pois não há crime perfeito. Não é, porém, o que pensam os magos da pedra filosofal das reeleições.

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