As máfias do Brasil - Joel Samways Neto
As máfias do Brasil
Joel Samways Neto
A partir do entendimento de que o Brasil caminha à base de crises, tudo indica que, logo, logo, algumas transformações profundas haverão de ocorrer. Diariamente, em quase todos os setores de nossa vida civil, há pelo menos uma crise vergonhosa acontecendo e nos desafiando. Crise montada nessa relação conflituosa entre administração pública e sociedade, entre o prestador e o tomador do serviço público. E como se trata de administração pública, os conflitos surgem naqueles setores onde o poder público atua com exclusividade, nas áreas da segurança e da saúde, principalmente. Então o cidadão, na condição de contribuinte, paga o preço dos tributos para exatamente manter a máquina administrativa que, dentre outras coisas, deverá dar conta das condições mínimas de segurança e sanitarismo públicos. Ele, literalmente, paga para não se incomodar, para não precisar defender com as próprias mãos sua vida e seu patrimônio, e, quando doente, poder receber um atendimento digno.
Acontece que, diante da ruindade do sistema, da falta de recursos materiais e humanos, a procura fica imensamente maior do que a oferta gerando uma enorme pressão para que o atendimento passe a ser selecionado. Quer dizer, os órgãos da promoção da segurança pública, por exemplo, que têm a obrigação legal, o dever funcional, de tornar segura a vida de todos, de repente passam a fazê-lo só para alguns. As dificuldades do sistema criam subsistemas, relacionamentos paralelos, fora-da-lei, nos quais as vítimas precisam pagar para ser atendidas (e os agressores pagam para não ser pegos). Outros subsistemas criam possibilidades de se capitalizar produtos e subprodutos da crise geral.
O caso envolvendo o corpo de uma professora paranaense, morta recentemente, em acidente rodoviário causado por violação dos protocolos de segurança, é emblemático. Um horror. O corpo, que estava sob a guarda e proteção da administração pública do Instituto Médico Legal paulista desapareceu. Só reapareceu porque a família da vítima tem relacionamento político com deputado estadual, federal, senador, governador e ainda com apresentador de programa popular de televisão. E a pressão política sufocou o subsistema até o corpo reaparecer.
Outros casos de vítimas desaparecidas, cujas famílias são ilustres desconhecidas, sem parentes importantes e vindas do interior, jamais terão o mesmo desfecho. E a hipótese de que o corpo seria usado para tráfico de órgãos é perfeitamente plausível. Pois não tivemos um assassino em série, um enfermeiro, que fornecia cadáveres a funerárias praticando eutanásia em doentes terminais? Do sistema de saúde. O mesmo sistema que diz que atende por dever o que é direito do usuário.
Esses subsistemas sãos as máfias do serviço público, organizações criminosas que se incrustam na administração pública para faturar em cima da precariedade do sistema. Negócio altamente rendoso, capaz de se prestar ao financiamento de campanhas eleitorais, numa tentativa de eleger o seu representante dentro dos procedimentos democráticos normais. Normais? Como considerar normal um processo eleitoral de vereador, por exemplo, orçado em R$ 300 mil? Quem poderá dispor de R$ 300 mil para bancar essa campanha? Se for na cara limpa, obviamente pouquíssimas pessoas terão tamanha fortuna pessoal, ou familiar, para custear sua participação no concurso.
O que fazem os políticos profissionais? Vão buscar dinheiro onde tem. Por isso o estouro de um subsistema leva ao estouro de outros, interligados que estavam, feito intranet. O jogo-do-bicho pode estar ligado ao narcotráfico, que pode estar ligado ao roubo de cargas, caminhões e carros, que pode estar ligado ao desmanche, que pode estar ligado ao tráfico de mulheres, adolescentes e crianças e sabe-se lá mais o que se possa imaginar. Se já aconteceu de uma empresa de guincho estar envolvida com policiais rodoviários em estranhos acidentes automobilísticos que ocorrem em determinados pontos de determinadas rodovias, inclusive por excesso de óleo na pista...
Felizmente, parece que o número de pessoas que sentem asco desses subsistemas mafiosos tem crescido mais do que o das que deles se locupletam. Não demorará muito e o sentimento de indignação impedirá a eleição e a nomeação dos corruptos aos cargos públicos, e estrangulará a entrada de ar que mantém vivas essas máfias que negociam a miséria, o desamparo, a ignorância e a ingenuidade dos brasileiros. O horror curará o horror.
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado em Curitiba





