Acabo de saber que o professor Darcy Ribeiro deixou de incomodar os maus políticos deste Brasil. Eu gostaria de inspiradamente escrever uma mensagem de despedida ao antropólogo, ao professor, ao ministro, ao indianista, ao poeta e prosador, ao político Darcy Ribeiro. Entretanto, folheando arquivos encontrei esse artigo, sem data, mas que foi escrito com a maior emoção e respeito. Ao reeditá-lo, presto minha homenagem aos sonhos de Mestre Darcy.
‘‘Darcy Ribeiro, no Programa Roda Viva, demonstrou que viver, muitas vezes é uma questão de vontade e principalmente de realização de projetos.
Lembro muito bem do professor Darcy, na época ministro da Educação de João Goulart, ministrando uma aula inaugural na Universidade Federal do Paraná (um ano depois o governo estava deposto pelo golpe militar de 1964). Darcy falava como quem tivesse a certeza de que os problemas da nação estariam brevemente resolvidos por um governo popular que trazia como proposta a diminuição das diferenças entre os mais ricos e os mais pobres.
Esse D. Quixote das Minas Gerais era incomparável em seu brilho, os cabelos teimosos caiam sobre a testa e eram jogados para trás com gestos rápidos e nervosos. Sentados lado a lado o professor Vieira Neto e eu, não conseguíamos nem respirar de tanta emoção. Parecia que tudo estaria resolvido no dia seguinte e que o discurso era simplesmente o programa do povo brasileiro para os próximos anos.
Terminada a cerimônia fui para meu apartamento, na praça da Espanha e tentei reproduzir (que petulância) a aula de Darcy, para uma platéia aturdida: Mauro Holzmann (meu marido), Dr. Murilo e Auristela Leão Rêgo (meus compadres de Londrina). Depois de uns quarenta minutos de arroubos oratórios, senti uma tontura e mal consegui chegar a meu quarto.
Sarandy Lacerda, médico, primo e vizinho foi chamado para ver o que ocorria e constatado o quadro complicado chamou imediatamente o grande médico e amigo, Rd. Lysandro Santos Lima. Diagnóstico: hemorragia de meninge, provocada por emoção violenta.
Hoje (quase quarenta anos depois), dia 17, fiquei outra vez diante daquele homem pequeno e brilhante que conseguiu dar uma lição de coragem e sabedoria aos jornalistas, professores e a todos os brasileiros que tiveram o acerto de ficar acordados para ouvir o mestre.
Hoje os tempos são outros, não tenho mais a emoção a flor da pele, sei que um dia tudo ficará diferente mas perdi a pressa, assim corri o risco de outro acidente vascular, que nesta altura seria fatal.
Com minha amiga Elcy Silva, irmã do ex-ministro Amaury Silva, fiquei atenta e preocupada com a dificuldade que o professor Darcy enfrentava, com seu único pulmão e sua saúde absolutamente frágil para chegar ao fim da entrevista.
Tudo que foi falado era um banho de cultura e de compromisso com o futuro de um povo especial que é o brasileiro. Aquele homem inquieto, vaidoso e formidável discorreu sobre a educação como todos os professores deveriam discorrer, sem falsos ufanismos e com a visão crítica necessária que conduz às reformas.
Os CIEPs, hoje com outro nome - CIAC - são de fato a obra do século em matéria de educação. Os governadores consideram o projeto caro, mas como diz Darcy ‘‘mais caro possivelmente vai ser sustentar esses alunos dos CIEPs nas penitenciárias, caso não lhes seja permitido comer e estudar, entender e partir para o trabalho em condições de igualdade com os demais meninos do Brasil’’.
Por que as escolas dos pobres têm que ser feias e feitas às pressas? É isso mesmo professor. Por que os políticos em geral e os governadores em particular acham sempre demais os orçamentos destinados à Educação pública? Por que nós estamos sempre preocupados com a merenda dos nossos filhos e dos nossos parentes e não pensamos que todas as crianças do país deveriam ter os mesmos direitos?
Darcy falou do amor como um adolescente e não como um homem com mais de 70 anos e à beira da morte. Que maravilha, conseguir sair do sofrimento puramente físico e poder dizer com ar maroto ‘‘o ideal é namorar eternamente’’.
Que sensacional ouví-lo dizer que poderia ter sido ótimo em qualquer área do conhecimento e se não o fez foi por pura pressa e curiosidade. Todos os assuntos o interessavam e por isso deixou a antropologia pelo magistério e este pela política e sempre tendo o cuidado de registrar suas experiências, em todas as áreas, em livros, conferências etc.; mas de fato não conseguiu e não consegue ficar só num assunto. Tudo para esse mineiro irrequieto é importante.
Quando lhe foi perguntado sobre seu amigo Brizola, saiu-se com essa pérola da literatura e do amor verdadeiro. ‘‘Nós intelectuais lemos livros, Brizola, como Jango, lê gente’’.
Falando sobre a mulher brasileira, quando se esperava que ele fizesse blague ou desmontrasse ‘‘seu conhecimento de causa’’, disse simplesmente: ‘‘As mulheres brasileiras são essas coitadas que trabalham na indústria, no comércio e no campo. As outras são de fato lindas, mas não representam a maioria’’.
Meu querido Darcy, você é e será sempre aquele jovem que me fez chorar e rir até o limite de minha própria saúde. Você é e será sempre o romântico e enamorado autor de ‘‘Mayra’’. Você é e será sempre o professor comprometido com seu povo e com os seus ideais (os deles e os nossos). Você não vai morrer, você simplesmente mudará de nuvem.

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