Abraham Shapiro
Há cerca de 50 dias acontecia em Denver, Colorado, uma das maiores tragédias da história dos Estados Unidos. Os tiros com que os jovens assassinaram colegas e professores de seu colégio chocaram não só os norte-americanos, mas todo o mundo. Víamos as cenas nos primeiros minutos do episódio e, diante de tamanha violência, a pergunta que se firmava na mente de todos era uma só: ‘‘Por quê?’.
Intuitivamente sabemos que nossas crianças são nosso futuro e o futuro da humanidade. Todo pai gosta de pensar que está transmitindo bons valores a seus filhos. Mas quando começam a portar armas semi-automáticas e a assassinar seus colegas de classe, faz-nos questionar sobre a qualidade e a eficiência do modelo que nós e nossa sociedade estamos adotando.
Uma das verdades mais incontestáveis desta vida é que há uma lição intrínseca em cada fato. Bem ou mal, tudo encerra em si um significado, um ensinamento a ser aprendido. Se é assim, qual, então, poderia ser nossa resposta à tragédia de Denver? Qual será nossa ação frente a algo tão horroroso? Detectores de metais nas portas de entrada? Devemos nos preocupar apenas com o desarmamento? Estaria a solução nestes atos?
Talvez o começo de um grande aprendizado estaria em perguntar a nós mesmos por quê há 50 anos os maiores problemas nas escolas públicas eram a conversa durante as aulas, mascar chicletes, correria nos corredores, entrar sem uniforme e guerra de papel amassado nas salas de aula. Hoje os problemas são abuso de drogas e álcool, gravidez, vício de fumo iniciando-se em crianças de 11 anos, suicídio, formação de quadrilhas, roubo, estupro e assalto.
Quiçá devêssemos considerar com maior rigor os efeitos de uma sociedade globalizada que expõe a mulher como um objeto - por meio da pornografia - que induz à infidelidade - via adultério - que prega a falta de comprometimento - pelo fácil acesso ao divórcio - que postula a busca cega e voluptuosa da sensualidade e de toda sorte de perversão - pela proliferação de videogames irregulares, música rock que exalta ritos funerais e satânicos, livros e filmes de fantasias apocalípticas.
É evidente que a solução não consiste em postar soldados armados nas portas das escolas, inspecionar mochilas ou proibir os alunos de vestirem capas pretas - como as autoridades de Denver impuseram - porém, em demonstrar aos adultos a necessidade de praticar em suas vidas atos que sirvam de exemplos a seus filhos. Pai e mãe são, antes de tudo, a mais autêntica e efetiva imagem de mestre que os filhos possuem, independentemente das reais condições que apresentam. E é exatamente o que nós, pais, somos: professores e mestres - quer gostemos ou não disso.
Então, quais mudanças podem ser feitas para que se retome o rumo desta nau? Sob o risco de ser tachado de fundamentalista, vejo que o problema é, antes de tudo, de ordem espiritual. Aliás, um amigo americano teve contato com os especialistas que analisaram o perfil psiquiátrico de 20 jovens assassinos múltiplos. Ele me fez saber que o denominador comum entre estes jovens é que eles não possuem nenhuma conexão com Deus.
Curiosamente, a revista ‘‘Newsweek’’ reportou que dois dos assassinos de Denver perguntaram a uma garota refém: ‘‘Você acredita em Deus?’. Quando ela respondeu ‘‘sim’’, os rapazes atiraram à queima-roupa contra ela, matando-a instantaneamente.
A sabedoria judaica, no Talmude, ensina que ‘‘crer em Deus’’ é o dissuasor primário do assassinato. A explicação é interessante. Os Dez Mandamentos - tais como constam em Êxodo, capítulo 20 - foram escritos em duas tábuas de pedra e entregues a Moisés. Na primeira tábua, onde estavam os mandamentos de 1 a 5, as leis referiam-se ao relacionamento do homem com Deus - amar a Deus, não fazer e adorar ídolos, guardar o sábado etc.
A segunda tábua, com os mandamentos de 6 a 10, traziam os que relacionam o homem com seu próximo - não matar, não furtar, não levantar falsidades etc. Os sábios do Talmude observam que existe uma estreita intimidade entre os mandamentos correspondentes de cada tábua, ou melhor, o primeiro mandamento - ‘‘crer em Deus’’ - corresponde ao sexto mandamento - ‘‘não matarás’’.
Qual é a conexão? Cada ser humano é criado com uma alma divina, pura. Não somos bonecos de carne e osso que passam por acaso como um relâmpago pelas coordenadas do espaço e tempo neste mundo. Nascemos com um propósito muito definido e elevado. Podemos nos sentir pouco à vontade com as nobres finalidades para que o homem foi criado, talvez pelas responsabilidades que isso supõe.
Mas a opção que muitos fazem de ensinar às crianças que elas não são superiores aos animais, acaba levando-as a tratar seus semelhantes como animais. Apesar da boa intenção, isso nada tem a ver com o respeito à natureza. É perfeitamente possível educar os filhos para a preservação do meio ambiente e ao amor pelos animais, sem que se distanciem dos valores do ser humano. É um assunto vasto.
O reconhecimento de que Deus está presente em tudo, revela que na dimensão espiritual não há fronteiras convencionais entre entidades. Nós todos somos um. Se ponderarmos isso, entenderemos que ‘‘machucar outro cara’’, como vingança de algo que tenha feito contra nós, torna-se tão ridículo quanto machucar a si mesmo. Se você está descascando uma laranja e corta seu dedo, você pega a faca e corta a outra mão como revide? Claro que não. Isto é insano. As duas mãos pertencem ao mesmo corpo.
Amar a Deus é o mais primário e elevado valor a ser ensinado a nossos filhos. E isto pode ser feito de forma simples e objetiva. Abra uma discussão sobre ‘‘quem é Deus’’ e como construir um relacionamento com Ele. Rezar à mesa de refeições pode ser um excelente início. Caminhar em lugares onde haja muita natureza e reconhecer a Deus como Criador é uma outra boa opção.
Quando amamos a Deus, amamos seus filhos - criados à Sua imagem. Disso todo mundo sabe, mas, no geral, estamos muito distantes de viver tal coisa objetivamente. Amar a Deus é algo sem sentido se não traduzido em cuidados com outros. Acreditar em Deus não dá a ninguém o direito de cometer crimes como atirar em médicos que fazem aborto ou queimar infiéis. Verdadeiro amor a Deus produz humildade e não furiosa luta pela exclusividade de idéias no mundo.
As crianças são um reflexo dos adultos. O pai que demonstra respeito por pessoas idosas, terá a felicidade de ver seus filhos respeitando outros e inclusive ele mesmo quando for idoso. A sociedade em que os adultos respeitam os professores e educadores, verá suas crianças respeitando seus professores e educadores, igualmente. O mesmo irá ocorrer em relação à natureza, ao patrimônio público, aos governos e tudo o mais. Exemplo! Exemplo! Exemplo!
É lamentável o que se sucedeu em Colorado. Este incidente, contudo, deve servir de aviso e lição para todos nós. Pode ser um começo da redenção de que nossa sociedade carece.
- ABRAHAM SHAPIRO é engenheiro industrial em Londrina

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