As lições de Fortaleza
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 31 de agosto de 2001
Manuel Joaquim R. dos Santos 
Estarrecidos! Este é o termo para classificar o estado de espí rito de 11 mi lhões de portu gueses, que no além-mar tive ram conheci mento da chacina perpetrada pelo patrício, que de Guerreiro só tinha o nome... Não é do desconhecimento de ninguém o fascínio que as praias do Nordeste e suas coadjuvantes qualidades possuem sobre europeus. Na Itália e em Portugal organizam-se diariamente excursões (a maioria composta de homens) para saborear as delícias brasileiras.
Até aqui nenhuma novidade. Os seis portugueses que desembarcaram no dia 12 vindos de Lisboa, estavam contaminados pelo mesmo entusiasmo e fascinados pelo que só de ouvir falar conheciam. Vinham para descansar e voltar como potenciais publicitários das maravilhas turísticas das bandas de cá. O vôo que os trouxe não os levou de volta. Na mesma noite, sem que repousassem nos preparados lençóis do hotel que os esperava, encontraram a morte horrenda numa barraca da Praia do Futuro.
Senti angustiado a apreensão dos portugueses em relação a um possível sequestro e vi antecipadamente o estrago que esse episódio se preparava para fazer nas relações harmoniosas entre os dois países. Já estava pressentindo mais uma vez a imagem do Brasil na lama, confirmando tudo que por lá se fala, e que muitas vezes, infelizmente, corresponde à verdade.
Mas neste episódio o vilão não foi a violência institucionalizada de nosso País. Pasmem os portugueses e os brasileiros: o algoz veio de lá! Veio atrás de uma vida melhor que não encontrou numa barraca de praia! Perseguindo uma vida ''fácil'' que vislumbrava nas orlas brasileiras... e que na verdade se mostrou uma miragem.
Esse homem vai entrar para os anais da história como quebra-cabeça de criminólogos. Dizia-se amigo de uma das vítimas. Amizade?! Sim! A isca perfeita para atrair à arapuca os que desejava eliminar. O Antônio, Joaquim, Manuel... vieram todos!
A confiança é a base de qualquer atividade humana. O crime é exceção. Por isso é que mais degradante se torna a traição. Ela toca o cerne do ser humano... a possibilidade de encarar o outro como elo de ligação essencial na cadeia humana da convivência social. Quem vive confia e quem não confia não tem chance de (com)viver.
Os turistas vieram até Fortaleza porque confiaram. Do lado de cá, tinha o Luís Miguel... o Guerreiro. Ele era a vela acesa na penumbra de um país inteiramente desconhecido e suspeito, quanto a perigos para incautos transeuntes. No entanto, ele acabou protagonizando as trevas da morte num país pleno de raios solares e de vida. Os amigos portugueses vieram cair nos braços da morte. Essa é a verdade.
O ser humano foi de novo vítima da ganância, que só pode conduzir à monstruosidade de atos como esse. Aliás, o mesmo Guerreiro se disse (num visível rosto de arrependido) um monstro. ''Sou um monstro!'' O que é um monstro? Uma aberração? Uma vingança da natureza? O que dirá a sua ex-mulher lá em Portugal? ''Dormi com um assassino?'' Já imaginaram os leitores a que nos poderia conduzir esta reflexão?
A mesma sociedade que acredita na reabilitação de um criminoso e nega portanto o exercício da pena de morte, também acredita no intrínseco dinamismo do ser humano, que lhe permite executar atos como os que hoje referimos. Ou seja, a constante possibilidade de um comum mortal se tornar um frio assassino. Triste verdade. Não somos nós todos pecadores a caminho de um progressivo arrependimento e conversão? Que explicação tem o pecado de Davi, que mandou matar o marido de sua futura amante? Como explicar a negação de Pedro (três vezes) tendo ele convivido com o seu Mestre e Senhor?
Difícil de conviver com esta constatação, mas o tal do Guerreiro, infelizmente faz parte de um exército de muitos guerreiros. A sociedade tem que estar preparada para lidar com esses monstros. A prevenção, que passa pela assimilação de valores imutáveis segue o sinuoso caminho da ética. A violência de fato, parece-me proporcional a um determinado modo de vida pautada pelo vale tudo!
Esta escalada de violência começa em patamares bem elementares e acaba galgando cenas como a de Fortaleza. Dá uma sensação terrível de impotência verificar que um homem comum em quem seis confiaram, a ponto de atravessarem o oceano, revelou-se um tremendo de um frio e calculista assassino. O buraco feito na cozinha da barraca, paradoxalmente desenterrou, mais uma vez, nossos elementares medos, na singela convivência humana.
No retorno a Portugal, os corpos levarão o carimbo indelével de uma terra cheia de grandes contrastes. A barraca da sepultura fica na Praia do Futuro, umas das mais belas do Brasil. No meio destas contradições, a maldade e a ganância dos homens, que nem sempre são guerreiros da paz e do amor. Encerra-se mais um capítulo do livro que infelizmente está longe de terminar.
- PADRE MANUEL JOAQUIM R. DOS SANTOS é pároco da Paróquia Imaculada Conceição em Londrina


