No tempo dos governos militares, a sucessão presidencial, que sempre foi momento de crise do regime, era resolvida dentro do Palácio do Planalto pelo presidente da República. Mas apesar da hierarquia e do comportamento previsível de oficiais havia brecha para disputas internas que movimentavam os quartéis e colocavam a tropa em polvorosa. Vez por outra aparecia um comunicado afirmando que o Exército estava unido e coeso em torno do chefe do governo.
Era a senha para inibir eventuais candidaturas dissidentes. A maioria dos presidentes-generais, no entanto, não conseguiu fazer seu sucessor, embora o ambiente da escolha fosse restrito. Castello Branco teve que engolir Costa e Silva. Este morreu no exercício do cargo e foi substituído por uma ridícula junta militar que não conseguiu se manter no poder. Veio Emílio Garrastazu Médici, que foi obrigado a abrir espaço para Ernesto Geisel. Até aí nenhum general havia realizado a manobra política perfeita de escolher e entronizar seu próprio sucessor.
Geisel conseguiu. Seu escolhido, Figueiredo, assumiu o poder. Fez um governo desastroso e concluiu sua obra deixando o Palácio do Planalto pela porta dos fundos para não passar a faixa a José Sarney, vice de Tancredo Neves que chegou à Presidência. Nos governos civis, recentes, o único que alcançou o mérito de colocar em seu lugar o escolhido foi Itamar Franco. Fernando Henrique, ministro da Fazenda, chegou lá.
A sucessão de Fernando Henrique, que seria difícil em ocasiões normais, ganhou enorme dramaticidade com a superposição de crises. Existe a do racionamento, a da Argentina e as dificuldades estruturais que não foram vencidas pelo atual governo. O presidente da República já escolheu seu sucessor. Se depender dele, será o ministro da Saúde, José Serra. O problema é que Serra ainda não escolheu seu caminho. Desconfia das facilidades agora concedidas e teme caminhar para o desastre. Hesita.
Ele tem apoios fortes, como o do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, ou o de Goiás, Marconi Perillo. Sofre oposição maciça do PFL, desde Antonio Carlos Magalhães até Jorge Bornhausen, e precisa que o PMDB permaneça dentro da aliança. Ou seja, ele pretende ser candidato se Itamar Franco não aparecer no quadro sucessório. Caso a candidatura Itamar se transforme em realidade, o cenário político deverá ser completamente diferente.
O presidente Fernando Henrique dispõe de outros nomes caso aquela hipótese tão temida no Planalto venha a ser real. Um deles pode ser o do ministro Pimenta da Veiga, mineiro, fundador do PSDB, discreto, e que já tem um esboço de programa de governo. Algo parecido com o plano de metas de JK. Depois de ter escapado, são e salvo, do desastre de avião em Ceres (GO), Pimenta está disposto a enfrentar outras aventuras.
As candidaturas de oposição estão apenas aparentemente indiferentes à dança de nomes do tabuleiro da sucessão. É uma indiferença estudada. Tanto Ciro quanto Lula sabem da importância da definição do PSDB e da decisão do PMDB. O PFL tem presença e força nas articulações. Dispõe de menor peso eleitoral. Mas seus dirigentes sabem negociar. Estão há anos no governo.
Curiosamente, a definição do quadro sucessório brasileiro está, cada vez mais, dependendo da decisão dos cardeais do PMDB. Se Itamar Franco estiver presente na disputa, os candidatos terão um perfil. Se ele não concorrer, terão outro. O governador de Minas, que fez seu sucessor na Presidência e ameaça a ela retornar, confirma sua fama de político de muita sorte. Embora longe de Brasília, sua simples existência, nas Alterosas, está determinando o rumo das conversas sobre quem substituirá o presidente da República.
- ANDRÉ GUSTAVO STUMPF é jornalista em Brasília
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