As intocáveis ditaduras do Mediterrâneo
Emma Bonino
Por ocasião da morte do déspota sírio Hafez Assad, repete-se a cena que aconteceu em setembro do ano passado, quando a ditadura do coronel Muammar Gaddafi completou 30 anos: a Europa oficial inclina-se reverente perante os tiranos, vivos ou mortos, do Mediterrâneo.
A Europa oficial omite-se quanto aos crimes cometidos por esses regimes, minimiza seus excessos e esquece os golpes de Estado com os quais usurparam o poder. Por outro lado, exalta a sagacidade e a sabedoria desses ditadores. Considera-os e os apresenta como se fossem nossos melhores vizinhos e interlocutores, bem como os melhores governantes possíveis para os povos que, por desgraça, lhes couberam.
Parece-me indecente que nos queiram fazer crer que as mulheres e os homens que vivem na Líbia e na Síria não tenham merecido durante os últimos 30 anos – e ainda continuem sem merecer – uma forma de governo superior às ditaduras que suportam.
Além disso, considero irresponsável fechar-se os olhos para o que é evidente: que a principal ameaça ‘‘à paz, à segurança e ao bem-estar dos povos do Mediterrâneo’’ (um chavão ao qual se dedica, pelo menos, um congresso por dia) provém precisamente daqueles países nos quais a democracia está ausente e onde, em seu lugar, estão autocratas que se consideram acima das leis e que não querem prestar conta de seus atos nem aos seus próprios súditos nem à comunidade internacional.
Gostaria de ter lido, em setembro de 1999, um editorial ou uma declaração que nos recordasse que o coronel Gaddafi é um caprichoso caudilho que despojou seus concidadãos das riquezas de 30 anos de bonança petrolífera, para dilapidá-las através da aquisição de armas sofisticadas, no financiamento de guerra inúteis nas nações vizinhas e operações terroristas em meio mundo, nas execuções mafiosas ordenadas para suprimir seus opositores e com a abertura de contas numeradas na Suíça em favor de seus cortesãos. Como podemos pensar que a Líbia não seja digna de um destino melhor?
E, nestes dias, gostaria de ter lido ou ouvido alguém capaz de descrever a verdadeira natureza do sinistro regime sírio: engendrado pela força militar, sustentado por 30 anos de atropelos e conjuras, que sobrevive à morte do tirano colocando em cena uma farsa constitucional que instala uma ditadura hereditária à maneira de Kim Il Sung e Filho, a dinastia estalinista implantada na Coréia do Norte.
Em vez disso, coube a mim assistir, assombrada, amontoarem-se diante do caixão de Assad, o presidente da Comissão Européia, Romano Prodi, e os demais líderes europeus, os mesmos que em setembro passado foram à tenda beduína de Muammar Gaddafi. Hoje em dia exalta-se os ditadores como se fossem modelos a serem seguidos.
Nessas horas em que se continua a dissertar sobre a ‘‘vocação modernizadora’’ de Bahar, filho de Assad (teremos um Assad II?), gostaria de estar junto aos líbios e sírios que seguem lutando pela democracia e desejar-lhes que muito brevemente seus países sejam governados por cidadãos (que não são poucos) que acreditam no Estado de Direito e na Declaração Universal dos Direitos do Homem.
- EMMA BONINO parlamentar européia e dirigente do Partido Radical Italiano (IPS)

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