A imagem dos governantes é uma composição dos conceitos e valores que os cidadãos lhes atribuem. Por meio de associação de idéias, as pessoas vão formando mapas mentais dos políticos, identificando-os com as coisas mais elementares do seu cotidiano, como benefícios e recompensas, carências e dificuldades, proximidade e distância, simpatia e antipatia, esperança e medo, alegria e tristeza. Para completar o retrato, as pessoas adicionam ao conceito a percepção estética do político, ou seja, a sua forma de falar, de trajar, os traços fisionômicos, a idade, a energia ou debilidade que transmitem. A soma global das imagens resulta em índices de aprovação e desaprovação.
Basta projetar esse conhecimento sobre o perfil de um político para se descobrir os motivos de ascensão e queda de seu prestígio. Fernando Henrique, por exemplo, segundo pesquisas recentes, tem mantido seu índice geral de aprovação, apesar de pequena variação entre as pesquisas de Ibope (para mais) e Datafolha (para menos). Significa dizer que o Governo ainda monta no cavalo de credibilidade do Real. A leitura principal, porém, é a da estática dos índices. Se as pessoas estivessem muito contentes, sua aprovação estaria pela casa dos 65% a 70% no conceito de ótimo/bom e não em torno dos 40%.
A explicação comporta ângulos variados. Primeiro, FHC apresenta uma imagem excessivamente política. Preocupou-se exageradamente com a questão da reeleição, recebendo, na esteira, respingos negativos da denúncia de compra de votos, que teria sido armada pelo ministro Sérgio Motta e o governador Amazonino Mendes (PFL-AM). A privatização da Vale do Rio Doce, mal explicada, recebeu rejeição de grande parcela da opinião pública. O salário mínimo pouco saiu do lugar. O país parece um queijo suíço, tão esburacadas estão as estradas. Doenças do quarto mundo e epidemias do século passado, voltam com força, como o sarampo (até em São Paulo) e a dengue no norte e nordeste. A malária corrói corpos na região amazônica. A segurança no Sudeste é um caos, com policiais militares fazendo greves e cárceres superlotados. A área social, portanto, é um câncer na imagem do Governo.
Há governantes que estão operando bem mas não sabem comunicar os feitos. Mário Covas (PSDB-SP) é um deles. Não sabe lidar com comunicação. Seu índice está por volta dos 10% de aprovação. Maguito Vilela (PMDB-GO), que era um quase anônimo no país, surpreende com a boa imagem, seguida de Tasso Jereissati (PSDB-CE), empresário-político que sabe fazer marketing. Maluf (PPB-SP) é um caso sui generis de perfil-gangorra. Ora, está em cima, ora, fica por baixo. A CPI dos Precatórios está passando ao largo dele. Soube se esconder das denúncias e apareceu conversando com FHC na intimidade do Palácio da Alvorada. Seu afilhado Pitta, ao contrário, não está bem. Foi pego em contradição. Lerner (PDT-PR) é um político com identidade técnica. Sempre estará bem, como o ex-prefeito Rafael Greca, fenômeno do marketing, de bom futuro político. Quércia (PMDB-SP), bombardeado, vai ficar seis meses nos EUA afinando a imagem.
Itamar Franco (sem partido) e José Sarney (PMDB-AP) são dois ícones presidenciáveis. Têm um bom recall (índice de recordação). Mas a imagem que os liga ao passado é maior que a esperança que os identifica com o futuro. Preencher a distância é seu maior desafio. Sarney porém, é equilibrado enquanto Itamar resvala pelo destempero. Lula (PT-SP) continua com o discurso raivoso, repleto de chavões e construções adjetivadas. Não avança nas propostas, satura nas críticas. Tarso Genro (PT-RS), é regionalista. Pode até ser a alternativa petista para a presidência. Diante desse quadro, resta concluir que não há opositor forte, por enquanto, à FHC. Ele oferece o maior leque de recompensas aos cidadãos. O bem que poderá fazer é maior que os erros que comete. Essa radiografia atual do cenário flagra momentos de pré-tensão e discursos ainda mornos. Um Brasil com 25 graus centígrados.

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