São inúmeras as reclamações de fiéis, católicos e evangélicos, para que se abram as portas das Igrejas num retorno à normalidade. Não adiantam sequer as justificativas mais óbvias, de que compete às Igrejas dar exemplo de defesa da vida, em momentos tão delicados como este. Do negacionismo à rebeldia explícita contra líderes de bom senso, se espalham os que não se contentam em ficar sem missas e cultos, como “sempre foi”.

Entendo primeiramente que nos últimos séculos fomos nós, padres e pastores, os únicos responsáveis por esta atitude, em tremenda dissintonia com o Evangelho de Cristo. Embora a Reforma de Lutero tenha começado assertiva, criticando os erros medievais da Igreja à qual pertencia e apontando para um novo modus operandi, não foram necessárias muitas décadas para que no seio das subsequentes igrejas reformadas, se tenham cometido desvios similares.

Líderes clericalistas, católicos ou protestantes, ensinavam aos fiéis que a instituição, com os seus sacramentos, devoções ou “instrumentos de salvação”, era de fundamental importância para a vivência plena de uma religião. Com isto, crescia a importância dos intermediários da fé!

O fluxo de batizados a caminho das igrejas aos domingos pela manhã ou para a recepção dos sacramentos tornou-se a melhor imagem da vida religiosa. Não nos podemos assustar agora, ao ouvir os gemidos e suspiros profundos de muitos fiéis para os quais tudo é suportável, exceto a situação terrível de não poder ir à igreja. Essas pessoas desejam participar da Eucaristia e anseiam peregrinar pelos seus santuários marianos favoritos, santuários milagrosos de S. Rafael ou outros!

Nós, e agora me refiro mais concretamente ao lado católico, nós os educamos assim. Sentem falta de uma rotina igrejeira, embora nem sempre eclesial! Fico imaginando os judeus exilados na Babilónia sem o que representava o templo de Jerusalém! Penduravam suas harpas junto aos rios e choravam (Sl 137) ...

A dita normalidade não pode voltar mais. E nem deve! Ela não era boa. A civilização ocidental está passando por um dos seus maiores testes e a Igreja Católica, idem. O Papa Francisco já nos conclamou a uma verdadeira saída. Jesus não está dentro! Ele está fora! Ele está no real e concreto e na monotonia do cotidiano, com as suas chagas expostas em tantos corpos, que às vezes com pressa de chegar ao templo, não reconhecemos.

Após esta pandemia a Igreja tem que se reinventar numa profunda e autêntica metanoia! Transformação, conversão, como diziam os gregos. Trata-se de um nascer de novo, com choro, mas com alegria. O foco não pode estar nos sacramentos nem nas liturgias esplendias regadas a incenso! Portanto, ter saudades de como era, pode representar apenas resistência ao novo que o Espírito está despertando, mesmo numa tragédia.

“Adorar em Espírito e Verdade”, como disse Jesus à Samaritana (Jo 4), e sermos definitivamente solidários com os mais pobres, desempregados, emigrantes, invisíveis da sociedade, é o caminho. Não há outro. A Eucaristia ou a Santa Ceia está umbilicalmente unida a esta dimensão. Isto vale para todas as denominações. A fidelidade a Jesus se reveste hoje de um acompanhamento bem próximo, aos romeiros da verdade, da justiça e da paz.

Nesta encruzilhada de narrativas, algumas das quais se reduzem a fakes brilhantemente elaboradas, fica o ensinamento fornecido pelos sinais dos tempos. Não como demagogia apocalítica, mas como pérola de esperança e vida. Deus sempre se revela e nos últimos tempos o fez em Cristo. Continuam válidos os textos de Gálatas e Hebreus. Essa experiência de uma pandemia macabra é a ocasião para repensarmos o nosso culto, a nossa fé e a nossa missão a partir de um nível e de uma perspectiva diferentes, como nos diz o teólogo indiano Felix Wilfred, da Universidade de Madras.

Bem escreveu um dos primeiros escritores cristãos, Dionísio Areopagita: “O centro de Deus está em todo lugar; a circunferência de Deus não está em lugar nenhum”! Não seria a primeira vez que a Igreja de Jesus Cristo passaria por uma reinvenção.

Padre Manuel Joaquim R. dos Santos, Arquidiocese de Londrina

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