As igrejas bloqueando os fiéis
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 20 de agosto de 1997
Walmor Maccarini 
Igreja contesta aparições da santa - diz o título de notícia da Folha, publicada terça-feira, referindo-se à revelação de pessoas que afirmam terem tido a visão de uma imagem divina, que seria Nossa Senhora Rainha da Paz. Está acontecendo no município de Reserva, região central do Paraná.
Visões idênticas sempre aconteceram e os testemunhos se somam aos milhares ao longo da história. Não é algo que deva surpreender, porque a própria Igreja Católica - a que agora contesta - já registra os casos de Fátima, de Lourdes, de Guadalupe.
O que causa perplexidade, quando tais fenômenos são revelados, é que as igrejas dominantes logo se apressam em negar. Já se alguém afirma que viu o demônio, aí elas acreditam. Tanto que logo se põem em ação, para exorcizá-lo. Muitas vezes o identificam no corpo de fiéis perturbados, porque a tudo atribuem presenças demoníacas. Quem se ligar nas igrejas eletrônicas, pela madrugada, verá muito desses ritos de exorcismo. Mas não só. Também as igrejas tradicionais o praticam, e como não têm muita prática no domínio dessas energias fazem uma barafunda danada. Mesmo que o fiel - destes puros e iluminados - tenha a visão de algo que transcenda o sensorial comum, o tratamento que recebe dos líderes de sua igreja é que está possuido pelo demônio. Logo, necessita da atenção deles, de suas boas graças, pois eles estão ali para manter o fiel sempre atrelado a essas limitações. O discurso é sempre o mesmo: Deus está lá no alto, distante, e aqui embaixo estamos nós, cheios de pecados, sujeitos às iras e aos castigos divinos, mas também às recompensas celestiais se formos bonzinhos. E as igrejas no meio, para fazer a triagem e dizer como temos que proceder, porque Deus não trata diretamente...
O contraditório é que esses guardiães das ovelhas terrenas incitam os fiéis à fé, mas quando ela se manifesta muito forte, levando-os à sintonia com os planos superiores e à visão de luzes, de anjos e de santos, aí os exorcizam como possuídos pelo senhor das trevas. O comum é que esses iluminados acabam abandonando a igreja, porque já não encontram espaço dentro dela, ademais ofuscando a figura do líder.
Agora a história das aparições da santa gerou um fordunço na Arquidiocese de Cascavel (a que pertence a paróquia de Reserva), porque quatro padres que foram lá ver, nada viram; e se não viram, logo não é verdade...
Não se discute se as visões são verdadeiras ou não, e sim a rapidez da igreja em contestar e em negar aos fiéis que essas coisas de Deus existem. Os sermões das missas do último domingo, na área daquela Arquidiocese, foram só em cima disto. Não se esperava, mesmo, que com tanta fé os padres observadores vissem alguma santa. Como as pessoas que afirmam terem visto são muito carentes, um dos padres valeu-se disto para proferir algumas pérolas. Uma delas é que essas pessoas são vítimas dos sinais que estão aí bem visíveis: a fome, a violência e o desamor.
Pois nos parece que se alguém irá ter a graça da visão de uma santa ou de anjos ou de luzes divinas, certamente serão estes puros e humildes (que poderão ser pobres ou não). Nossa Senhora de Guadalupe apareceu a um inocente menino Diego, justamente numa época em que a população do México, desesperançada, encontrava-se em estado de grande depressão.
Ora, pela analogia de um dos padres, os carentes não podem ter acesso a uma possível visão da santa, deixando supor que esse direito seria privilégio de gente bem nutrida, de boa saúde e bom nível social.
Outra pérola do vigário: Se Nossa Senhora estaria mesmo aparecendo, certamente interviria contra as situações de desigualdade, de miséria e de corrupção aqui na Terra. Como se a santa fosse uma militante petista, que só pensasse em soluções terrenas. Não se sabe se com isso ele afirma a santa, ao atribuir-lhe o poder e a oportunidade dessa intervenção, ou se a nega, ao ironizar a possibilidade de que ela esteja realmente se mostrando a esses humildes de boa fé. Ademais, se a santa quisesse intervir, por desígnio de quem a enviou, o faria sem a necessidade de aparecer, ou, vice-versa, apareceria sem intervir. Está certo que a Arquidiocese tem poderes sobre seu território, e a santa bem que poderia ter pedido licença ao bispo, mas o padre não pode ficar determinando o que ela deve fazer ou não...
Para que Deus e os seus santos intervenham em nossas barbaridades terrenas é preciso, primeiro, que nós o queiramos. Mas nós não queremos, tanto que as praticamos. Então Ele deixa que exerçamos nosso livre arbítrio, pelo tempo e na intensidade que quisermos, pois isto foi um direito que Ele nos outorgou. Um Pai maior não poderia haver, como este que nos dispõe todas as graças, mas não as impõe: nos deixa livres para buscá-las quando desejarmos. Nem Deus irá intervir em nada, pois tudo já nos concedeu, e em abundância. Basta contemplar o que queremos, desejar e verbalizar. Não é preciso pedir, se já temos.
A presença da santa é apenas uma visita cordial, para realimentar a fé daqueles que já crêem. Os carentes que juram que viram, estes talvez tenham a pureza e o desprendimento das crianças, então viram...
Se a fé dos simples a admite, Nossa Senhora Rainha da Paz deve mesmo estar se manifestando para eles. Porque tudo aquilo em que acreditamos, se manifesta. Ademais, são sinais previstos para este final de milênio, e muitos mais veremos! Pobre daquele que só crê se enxergar pelos olhos carnais.
As lideranças religiosas têm mesmo razões para se preocupar: se os santos começarem a aparecer demais acabarão deixando as igrejas sem função!


