Há um consenso de que o PT foi o grande vitorioso no segundo turno das eleições municipais e o PFL o principal derrotado. O mau desempenho do PFL, inclusive, tem uma repercussão interna no partido: muitos analistas projetavam que com a saída de Antônio Carlos Magalhães da presidência do Senado, ele se enfraqueceria no interior do partido e no cenário nacional.
No entanto, a derrota do PFL em Recife e no Rio de Janeiro e as trapalhadas do senador Jorge Bornhausen ao apoiar Maluf em São Paulo, enfraqueceram justamente a dupla Marco Maciel-Bornhausen. Em contrapartida, a vitória do carlismo na Bahia garantiu a ACM o status de principal liderança do partido. A percepção deste quadro é importante, pois ele terá significativa influência no jogo sucessório em 2002.
Ao receber as honras da vitória no segundo turno, o PT deve encará-la com humildade, sobriedade e responsabilidade. As causas da vitória são mais ou menos conhecidas: a exigência de moralidade pública, experiências bem-sucedidas nas administrações municipais do PT, programas com prioridade no investimento social e crítica ao modelo econômico vigente no Brasil.
O resultado e o recado das urnas sinalizam também algumas consequências políticas importantes. Em primeiro lugar, haverá um maior equilíbrio de poder entre partidos opostos ou diferentes. Isto é bom para a democracia porque aumenta o sistema de fiscalização e controles mútuos entre os partidos, exigindo uma maior negociação de interesses, agendas, decisões etc.
O bom desempenho do PT poderá fazer com que os outros partidos assumam as características organizativas e comportamentais de partidos propriamente ditos. O sistema partidário poderá fortalecer-se, impulsionado, inclusive, pela reforma política. Os outros partidos serão forçados também a assumir compromissos para com a moralidade pública.
O caráter estrutural da corrupção no Brasil não faz dela apenas um tema moral, mas a torna um dos principais problemas políticos e econômicos. A redução drástica da corrupção está implicada com a exigência de se conferir um caráter republicano às instituições públicas como coisa do público e com a exigência de melhoria da performance do investimento público como insumo do desenvolvimento econômico.
As urnas indicam também que os governantes deverão fazer um movimento geral rumo à agenda social. As trágicas condições sociais do País, a falta de educação, saúde, moradia, transporte público e saneamento básico requerem uma reorientação dos gastos públicos. As necessidades básicas da população devem adquirir o status de prioridade nos orçamentos. Cortar gastos nas atividades-meios para investir recursos nas atividades-fins é uma medida imperativa, dada a escassez de recursos. Neste esforço devem entrar as próprias câmaras de vereadores, que hoje consomem recursos públicos além do razoável.
Quanto ao modelo econômico, cabe ao governo assimilar ou não o recado que vem das urnas. Crescimento econômico com justiça social, com emprego e renda, deve constituir-se no eixo articulador de um programa econômico para o País. É esta a exigência da sociedade e é este o projeto pelo qual o PT continuará lutando. As prefeituras podem fazer muito para melhorar o nível de emprego, a distribuição de renda e o crescimento econômico. Propostas como renda mínima, bolsa-escola, treinamento de mão-de-obra, banco do povo, investimentos que gerem emprego etc., precisam agora sair do papel.
Se o PT já era um partido nacional em termos de adesão do eleitorado antes das eleições, tornou-se também um partido nacional em termos de estrutura de poder. O mapa das prefeituras importantes que serão governadas pelo partido recobre todas as regiões do País: Belém, no Norte; Recife e Aracaju, no Nordeste; São Paulo, Guarulhos, Campinas, Ribeirão Preto, Santo André e outras no Sudeste; Porto Alegre, Santa Maria, Caxias do Sul, Pelotas, Londrina, Maringá, Chapecó e outras no Sul; e várias outras pequenas e médias prefeituras espalhadas pelo Brasil.
A principal preocupação do PT deve ser, agora, governar bem estas cidades, implementar os programas sociais e não decepcionar os eleitores. O acesso à parcela importante do poder que lhe foi franqueado pelo eleitorado deve ser acompanhado por uma advertência: o PT não pode se corromper e não pode falhar. A corrupção é a origem da falta de compromisso com as necessidades e objetivos da sociedade. A primeira condição para que o PT realize sua vocação transformadora é a de preservar o emblema da moralidade pública.
- JOSÉ GENOINO é deputado federal pelo PT-SP

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